As ditaduras latino-americanas e o desaparecimento silencioso dos seus opositores

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Em plena década de 70, juntas militares subiam ao poder em vários países da América Latina, organizando um dos planos mais sangrentos da história do continente. Argentina, Chile, Paraguai, Uruguai, Bolívia e Brasil oficializam em 1975 a "Operação Condor", com vista a lutar contra o comunismo mundial e reprimir os seus opositores. No total, mais de 35 mil pessoas foram mortas ou desapareceram durante este período.

Por detrás do plano está o general chileno Augusto Pinochet (1973- -1990). Ao contrário dos métodos tradicionais usados pelo comandante Stroessner na "velha" ditadura do Paraguai (1954-1989), o general Pinochet descobre que a solução está na forma como essa repressão é feita. Em vez de detenções em massa nas ruas de Santiago, o ditador chileno optou pelo secretismo da tortura, dos "desaparecimentos" ou dos assassínios. Práticas ensinadas pelos militares franceses - que tinham um sistema de repressão generalizada na Argélia - e americanos. Tudo com o conhecimento dos EUA.

O relatório enviado em Outubro de 1976 para Washington pelo agente do FBI colocado na Argentina mostra isso mesmo. Segundo Robert Scherrer, a "Operação Condor" era destinada a "recolher, trocar e armazenar informações secretas sobre esquerdistas, comunistas e marxistas". O mesmo plano previa "acções conjuntas contra objectivos subversivos nos países membros". A "fase três" da operação previa "formar grupos especiais que viajarão para os países membros para assassinar simpatizantes de organizações terroristas dos países membros".

A primeira grande "Operação Condor" ocorreu a 16 de Maio de 1975 e mostra a ligação entre as várias nações a detenção no Paraguai do argentino Amilcar Santucho e do chileno Jorge Fuentes, duas figuras da Junta de Coordenação Revolucionária, uma coligação de movimentos de esquerda. As operações da "fase três" terminaram em 1976, mas até 1980 continuam as detenções.

Em Abril de 1977 surge a primeira manifestação do movimento argentino das Mães da Praça de Maio, na cidade de Buenos Aires, denunciando os "campos de concentração" e os "desaparecimentos". Protestos que se mantêm ainda hoje, todas as quintas-feiras, "para que ninguém esqueça e justiça seja feita".

Justiça que tarda mesmo a ser feita, devido a várias leis de amnistia aprovadas em alguns destes países, que só recentemente estão a ser revistas. Para muitos dos processos actualmente a ser julgados contribuíram as centenas de milhares de documentos descobertos, como os "arquivos do terror" do Paraguai (em 1992).

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