As contradições de Cavaco Silva
A entrevista de Cavaco Silva ao Observador é um poço de contradições, por parte do entrevistado. Como é possível dizer-se defensor da social-democracia moderna e elogiar o Chega? Com uma agravante, diz que o Governo do PS, como se viu no Orçamento, depende de uma força, que pouco tem a ver com a democracia, ou seja, o PCP. Será que é o Chega, no entender de Cavaco, que tem muito a ver com a democracia? Risos.
Os livros que o ex-Presidente e ex-primeiro-ministro anda a escrever, e que suscitaram a entrevista ao Observador, vendem gato por lebre ou, se quisermos, são uma fraude, pois dizem ser a social-democracia moderna, quando o autor, por exemplo, afirma que a maioria do Estado na TAP foi um grande erro.
Recuando um pouco no tempo, o programa do PPD - hoje PSD, o partido de Cavaco -, esse sim social-democrata moderno, sublinhava que os sectores-chave da economia deveriam ser controlados pelo Estado. O ex-Presidente deveria ter a obrigação de saber isso, ou, talvez o soubesse, só que convinha-lhe ignorar tal disposição. Fez tábua rasa do programa original do seu partido.
As contradições, e inverdades também, de Cavaco não se ficam por aqui. Diz que a devolução de rendimentos começou com Passos Coelho, quando este em cortes nas pensões, só para citar os casos que me dizem respeito, levou mais de dez mil euros à minha mulher, cuja reforma não chega aos dois mil, e até na minha - pouco mais de 700 euros - 'roubou' nos subsídios de férias e de Natal. Mas que grande devolução de rendimentos!
Cavaco salienta ainda, ao longo da entrevista, que muitos dizem que o Governo não tem rumo. Se se refere ao período da pandemia, a afirmação parece-me totalmente despropositada, porque é difícil ter rumo quando as vicissitudes, e bem grandes foram, nos batem à porta. O rumo que há é combater a pandemia, tentando vencê-la. E não vejo, sinceramente, que a acção do Governo nesta matéria, possa ser muito criticável, dado que fez tudo o que podia e devia. E o balanço é francamente positivo.
Se o dizer de Cavaco se reporta à fase anterior à pandemia, o disparate assume proporções ainda maiores, porque Portugal estava a viver tempos de prosperidade, com crescimento acima da média europeia, decorrente de uma política económica, que levou um português, Mário Centeno, à presidência do Eurogrupo. Que melhor rumo poderia haver?
A avaliar pela entrevista, que deixa muito a desejar, pelo teor infeliz das afirmações do entrevistado, sou capaz de dar razão a Mário Soares, quando este afirmava que Cavaco Silva não passa de um economista mediano! Para quem até, a política é um horror!
Escreve segundo a norma anterior ao Acordo Ortográfico

