José Régio nasceu em Vila do Conde, Antero de Quental escolheu-a para passar os últimos anos de vida no Continente, Ruy Belo procurou-a como se fosse "o lugar onde o coração se esconde". Outros escritores deixaram marca, mesmo que esse legado seja imaterial, na cidade onde o Ave encontra o mar. A autarquia propõe, agora, a redescoberta desses autores, através de um itinerário de afectos, em nome da palavra, para preservar a memória. É a Rota d'Escritas, um projecto que traça ao visitante de Vila do Conde o itinerário das casas onde vários escritores viveram e assinala também os seus locais de referência. O roteiro poderá começar na casa onde Régio viveu, neste momento a sofrer uma acção de restauro. O interior do edifício está como o poeta o deixou mantém os mesmos quadros nas paredes, os mesmos móveis, a mesma disposição dos livros. E assim, em respeito à memória do autor de Cântico Negro, abrirá, em breve, ao público..Na rota das palavras e afectos surge um novo núcleo a casa de Benilde, empregada da família de José Régio, muito próximo do local da casa do poeta. O imóvel, comprado pela autarquia, sofreu profunda transformação e servirá de local de recepção aos visitantes da casa de Régio. Na antiga habitação de Benilde, que será a sede do Centro de Estudos Regianos, há ainda um pequeno auditório e um espaço para exposições temporárias..Os últimos anos de Antero.A casa onde Antero de Quental passou os últimos dez anos no Continente - antes de partir para os Açores e pôr termo à vida - é outros dos pontos da Rota d'Escritas. A autarquia pretende adquirir o imóvel e instalar aí o Centro de Estudos Anterianos que existe há mais de uma década em Vila do Conde e, entre outras actividades, publica um boletim dirigido por Eduardo Lourenço..Antero de Quental fixou residência em Vila do Conde em 1881, "terrazinha antiga, plácida e campestre", como refere em carta a Alberto Sampaio. Antero, além da escrita, consegue fazer aí "uma coisa rara, prodigiosa" dormir. "Faço-o como se fosse a coisa mais natural deste mundo! Veja se não hei-de considerar esta terra, além de maravilhosa, salvadora"..A presença do destacado representante da Geração de 70 fez regressar a Vila do Conde, de visita ao amigo, Eça de Queirós. E o romancista encontra "um Antero gordo, róseo, reflorido (...), meneando a grossa bengala da Índia que em Lisboa eu lhe dera para amparar a tristeza e a fadiga". No itinerário das casas do escritores, a de Eça também será assinalada. O "pobre homem da Póvoa de Varzim", como um dia o autor de Os Maias se definiu, filho de mãe incógnita, foi baptizado em Vila do Conde e aí viveu até aos oito anos..Camilo Castelo Branco, Guerra Junqueiro, José Pacheco Neves, Júlio/Saul Dias são os outros escritores que integram a rota das palavras. O itinerário passa ainda pela casa dos pintores Sónia e Robert Delaunay, casal francês, fugidos da I Guerra Mundial, que fixaram residência na terra de José Régio e tiveram influência de relevo na moderna pintura portuguesa. .A estada de Camilo Castelo Branco em Vila do Conde foi curta, o mesmo se passou com o poeta Guerra Junqueiro. Camilo , nas terras de José Régio, terá escrito uma novela; o poeta de Freixo de Espada à Cinta ter-se-á inspirado num sacerdote local para escrever a Velhice do Padre Eterno.