Por mais luminoso que seja o dia, Hubertus Nees acende sempre os candeeiros quando entra na oficina onde produz as suas facas. «Preciso de luz constante. Neste trabalho o rigor é tudo», diz, numa mistura de português e inglês, com um sotaque germânico carregado. Ninguém diria, olhando para as duas mesas que ocupam o centro do pequeno edifício. Uma é um mar de papéis, madeiras e ferramentas de toda a espécie. A outra é um caos, com ossos, pedras e minerais. Perto da entrada, uma bigorna e, ao lado, um forno. À porta está um cartaz com a frase: «Estacionamento exclusivo a condutores de Harley Davidsons.» Há também uma aparelhagem coberta de pó e uma pilha de CD de música country. Bob Dylan, entretanto, começou a cantar Times Passes Slowly..Hubs é um tipo alto, magro, com barba rala e bigode comprido. Tem 60 anos e, como gosta de motos, costuma usar um casaco de cabedal que lhe dá um ar de duro. É frequente vê-lo chegar a qualquer lado com duas malas de aço que parecem saídas de um filme de gangsters. Lá dentro, viajam as suas «meninas», facas de vários tamanhos e formatos, com múltiplas aplicações. «Não há duas iguais, cada uma é obra única.» Há-as para homem e senhora, para a cozinha, caça, pesca ou simplesmente para decoração. São feitas de materiais peculiares como ossos de animais, alguns já extintos. Ou pedras preciosas. Ou madeiras raras..A oficina onde os utensílios ganham forma fica numa quinta junto de Espiche, perto de Lagos. Para lá chegar é preciso atravessar estradas de pouco alcatrão e outras de terra batida, invariavelmente ladeadas por palmeiras e catos do tamanho de um homem. Mas são poucos os que ali vão comprar facas. Hubs vende 95 por cento da sua mercadoria pela net, através do site algarveknives.com. «Agora estou a trabalhar num pedido de um homem de negócios. Como ele é asiático, vou fazer o cabo de corno de búfalo tailandês.» Antes, fez uma faca para um dos administradores da companhia aérea Lufthansa. «O homem nasceu em África, por isso embuti um mapa do continente, de marfim, no pomo. Tento sempre perceber quem vai ficar com a faca, conhecer a sua personalidade e a sua história. E depois criar um objeto o mais personalizado possível.».Cada faca leva uns bons quatro ou cinco dias a estar pronta. E se as mais pequenas custam 750 euros, há outras que facilmente chegam aos milhares de euros, tendo em conta os materiais usados e a qualidade da lâmina. No ano passado, no Salão de Facas de Madrid, um dos principais do mundo, Hubs conseguiu o segundo lugar. Foi com uma faca com cabo de marfim e lâmina arredondada, encomendada por um caçador de ursos-polares do Alasca. «Desenhei o animal no osso, em relevo, ficou espetacular. E era uma lâmina mesmo boa, apropriada para a função, porque o dono queixava-se de dar cabo de uma faca de cada vez que matava um urso e, da última vez que falei com ele, já tinha esventrado três sem sequer precisar de a afiar.».Grande parte da vida de Hubs foi passada a viajar. Andou pela Sibéria e pelo Alasca, atravessou África e percorreu o Sudeste Asiático - e em todas essas incursões foi estabelecendo contactos com arqueólogos e geólogos. «Há um mundo que é desconhecido para a maioria das pessoas, mas que mexe muito dinheiro. Com um mercado enorme no universo mineral e grandes caçadores de tesouros, uns legais, outros ilegais. É a eles que eu compro as raridades com que fabrico os cabos das minhas facas.».Ossos de mamute, marfim de elefante, pénis de baleia, chifres de alce, veado ou búfalo. O alemão não acredita em abates clandestinos, apresenta um certificado para todos os materiais que encomenda. «Também compro madeiras raras e agora tenho aqui este pedaço de meteorito que caiu no deserto do Sara. Vai dar um belo punho, não vai?» Mas não se pense que o homem esculpe os cabos usando só uma matéria-prima. Cada faca está decorada com um conjunto de materiais que formam desenhos e texturas diferentes. Há cabos de marfim cortados ao meio por filões de ouro, outros de sequoia com rosáceas de prata incrustada, uns quantos com uma camada exterior de osso e o interior de pedra..«É preciso que o cabo e a lâmina tenham o mesmo peso, para não fatigar a mão», vai explicando. Se a faca servir para cortar peixe, o cabo deve ser arredondado e a lâmina comprida, de modo a permitir ao cozinheiro cortar horizontalmente. Se for para cortar legumes, tem de ter espaço para os cinco dedos agarrarem a faca sem se entalarem na mesa, para o corte poder ser rápido. Numa faca de caça, é essencial um travão no cabo para que, quando se esventram os animais, a lâmina não perfure a vesícula, estragando a carne..Alguns utensílios são verdadeiramente específicos. Hubs remexe uma gaveta da sua oficina e encontra uma faca de caça com um apito para chamar os cães. Outra que é usada na pesca e que brilha no escuro. «Uma faca de senhora não pode ter mais tamanho do que a distância do polegar ao indicador, para caber na mala. Já uma faca de mato tem de ter um coldre flexível, para não ferir o portador quando este precisar de se agachar.».No fabrico de lâminas, os mesmíssimos cuidados. Não afiar as pontas das facas de caça para não cortar as entranhas. Afiar os punhais dos dois lados, são facas de ataque. Arredondar a lâmina de uma faca de cozinha, para permitir aos cozinheiros cortarem os alimentos de trás para a frente. Daqui a nada há de chegar Hans Neuner, o chef austríaco que conquistou, no ano passado, a segunda estrela Michelin para o restaurante Ocean, em Armação de Pera. Veio encomendar mais uma faca, além das três que já comprou a Hubs..Em janeiro deste ano, na última edição do Tribute to Claudia - um dos mais importantes festivais gourmet internacionais do mundo - Hubs tornou-se uma estrela inesperada dos bastidores. Todos os dias chegavam ao restaurante Vila Joya, no Algarve, alguns dos mais reputados chefs do mundo e Neuner disse ao fabricante de facas alemão: «Porque não apareces por lá? Vem e traz as facas.» Assim foi. Hubs apareceu um dia, depois outro, e outro. Cada equipa de cozinheiros parecia salivar por uma das suas facas - e nesses dias recebeu várias encomendas, além das vendas que concretizou na hora. Hoje, Neuner ainda se decide a pedir-lhe a criação de talheres para a nova temporada do Ocean. «Este tipo é um faz-tudo», diz o chef. «E faz bem.».A criação de lâminas é bem capaz de ser o processo mais complicado da arte de Hubertus Nees. «Tens de pensar no ferro e no aço como um íman e tentar perceber como os átomos interagem entre si. Nos tempos antigos, os ferreiros diziam que só se podia fazer facas em noites de lua cheia. Mas isso eram balelas, servia para manter os segredos na família e mais nada.» O fogo, a bigorna e o martelo são usados com o mesmo ritmo de fabrico da espada samurai: ir ao forno trinta a quarenta vezes, a 180 graus, mergulhado em água e martelado quarenta vezes em cada face. Depois tem de passar pelo forno a 850 graus, mergulhado em óleo enrijecedor e enrolado em folha de alumínio. «No final, ainda se passam duas ou três horas a arear o aço. Afiar na pedra é o último dos processos.».Para medir o calor, Hubs tem de saber ler a luz das brasas e do ferro. Por isso, as lâminas são fabricadas à noite. Quem o vê a medir o fogão, a olhar com olho clínico para as ligas de ferro, a perceber o comportamento dos átomos, duvida por instantes se não há qualquer coisa de alquimista nesta sua arte de criar facas. .Foi o gosto do pai pela caça que o levou à paixão pelas facas. «Não me lembro bem da primeira faca que tive, porque sempre me lembro de ter muitas.» Nos terrenos de sua casa, junto ao Reno, no sul da Alemanha, os fins de semana eram passados à cata de javalis. Nas férias, a família rumava à Namíbia. O pai fabricava as suas próprias facas, num anexo da casa. Desde miúdo, Hubertus deixou-se fascinar pelo som do martelo a bater na bigorna..Aos 16 anos descobriu a sua outra paixão maior: as motos. Começou a pegar numa motorizada e a passar os fins de semana fora com os amigos - «não levava comigo mais do que umas latas de comida e uma faca de mato». Estudou Engenharia Mecânica, em Karlsruhe, e ganhou dinheiro suficiente para, em 1975, comprar a primeira Harley. Foi viajar pela Europa, estadas cada vez mais longas. Depois, encontrou a fórmula de vida perfeita: trabalhar seis meses na Alemanha, viajar outros tantos pelo mundo. E visitou sítios longínquos: a Sibéria, o Alasca, o Sudeste Asiático, as montanhas do Canadá. «Às tantas, apanhei um barco para Miami e decidi atravessar a América de camião. Cheguei a Los Angeles e contactei um amigo que tinha uma empresa de duplos de cinema.» Foi duplo de Charles Bronson em três filmes diferentes - e ainda integrou o grupo de índios de que Kevin Costner se tornou amigo em Danças com Lobos..«Com esse dinheiro, consegui abrir uma loja de motos na Califórnia, mas os americanos são tramados com a emigração e eu sabia que, mais tarde ou mais cedo, tinha de voltar à Europa.» Em 1986, regressou a este lado do Atlântico. Mas, um ano depois, preferiu instalar-se num sítio quente, perto do mar. Comprou um terreno nos arredores de Espiche e ali instalou uma oficina de Harleys. Afinal, o Algarve era terra acolhedora para motards - trabalho não lhe faltaria. Construiu com as próprias mãos uma casa redonda no alto da colina. «E numa viagem à Tailândia, conheci a Wanida, com quem acabaria por me casar em 2007, depois de um ano a trocar cartas.» .Para a mulher, massagista profissional, Hubs construiu um lago asiático, cheio de nenúfares e carpas, e uma cabana em forma de cogumelo onde ela pudesse continuar a exercer a profissão. Para si mesmo, começou a comprar os materiais e as ferramentas que lhe permitissem fabricar facas e instalou-as numa das duas garagens da propriedade (a outra está repleta de Harleys, motores e sobras da oficina de motos que manteve aberta até alturas do casamento)..«As facas são uma paixão enorme, quanto mais aprendemos sobre elas mais sabemos que ainda não sabemos nada», diz, enrolando o bigode. Esta noite, Hubs há de ficar acordado até aos primeiros raios de sol, de volta do tal meteorito que caiu no deserto marroquino. Há de inventar com ele um punho que também levará madeira e, talvez, uma incrustação de marfim. Mesmo que não a venda, há de sempre tratá-la com cuidado, depositá-la como um bebé numa mala de gangster, mostrá-la como se fosse um tesouro. «As facas acompanham o homem desde os primórdios dos tempos. Ajudaram-no a marcar território, a caçar e a sobreviver. Não são armas, são utensílios. Mas devemos-lhes o mesmo respeito que devemos à natureza. São a peça fundamental da nossa afirmação enquanto raça dominante do planeta. Se a dominamos bem ou mal, porra, isso já é outra história.»