Arquiteto Soares de Sousa quer definição no centro histórico de Ponta Delgada

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O arquiteto Soares de Sousa, que lançou um livro sobre a arquitetura urbana de Ponta Delgada, defendeu hoje que é imperioso definir o que deve ou não ser intervencionado no centro histórico da cidade açoriana.

António Soares de Sousa, que nasceu em 13 de junho de 1932 e estudou na Escola Superior de Belas Artes, em Lisboa, considera que há que estabelecer a intervenção a adotar nos edifícios mais notáveis da cidade, bem como naqueles que apesar de não terem esta classificação são característicos de Ponta Delgada, na ilha de São Miguel.

O autor da obra agora editada "A arquitetura urbana em Ponta Delgada -- finais do século XIX, começos do século XX", é defensor que há que "abrir uma porta" neste capítulo, com base na realização de estudos "mais aprofundados", alertando que há intervenções que não devem ter lugar e outras que podem ir até à demolição.

O arquiteto-pintor, que iniciou a sua carreira na Câmara Municipal de Lisboa, em 1964, admite, contudo, dificuldades para colocar em prática uma iniciativa como esta, por falta de orçamento ou devido ao factor tempo que o projeto requer, mas fica o desafio para se avançar neste capítulo.

Para o arquiteto, que foi diretor de serviços na direção de Urbanismo e Ambiente da Secretaria Regional do Equipamento Social, a Câmara Municipal de Ponta Delgada deve criar um grupo de trabalho para se avançar na preservação do centro histórico com recurso aos profissionais locais, estando em causa questões de segurança, resistência e salubridade, entre outros fatores, que devem ser realizadas "com detalhe".

Soares de Sousa, que começou ainda na Câmara Municipal de Lisboa a dedicar-se aos centros históricos, participando em iniciativas em cidades como Roma, aponta que em burgos como o Porto, em que se já tentou desenvolver um projeto desta natureza, acabou-se por sucumbir às pressões políticas e económicas.

Tal como aconteceu na Turquia, Grécia ou em Bolonha, Itália, onde foi desenvolvido um "trabalho meticuloso" nos centros históricos, o processo sofreu um impasse alguns anos depois do seu início e após pressões políticas face aos volumes financeiros envolvidos.

Nestes processos de valorização dos centros históricos, o arquiteto defende que não se podem retirar os habitantes dos centros das cidades, como garantia de sucesso.

Para Soares de Sousa não foi apenas a dinâmica económica que os Açores sofrerem na última década que impôs alterações urbanísticas, tendo a "falta de planeamento" sido uma das principais razões.

"Nunca houve uma reflexão sobre a questões do urbanismo e consequente planeamento. Ponta Delgada cresceu mesmo antes da atual dinâmica, em muitos aspetos, mal, o que agora tem reflexos, acrescendo a dinâmica do turismo, que pode ainda agravar muito mais a questão", declara.

Soares de Sousa vê esta esta questão com "grande preocupação", sem deixar de lançar uma nota critica ao poder político local e regional no capítulo do urbanismo.

O arquiteto aborda ainda o 'marketing político' do Governo dos Açores - que "está agora a gerar efeitos" - de apostar no recurso a arquitetos reconhecidos do país para a realização de obras, descartando-se os locais, exemplificando com o Centro de Artes Contemporâneas dos Açores -- Arquipélago, "bem feito, embora exagerado", a par do Centro de Interpretação do Vulcão dos Capelinhos, entre outros, que vão ser expostos na bienal de Veneza de arquitetura.

"Esta estratégia, que eu concordo, tem efeitos perversos para os arquitetos dos Açores. É desprezá-los, não se dando as condições para realizar", considera o arquiteto.

A par da sua atividade profissional, com projectos e realizações em urbanismo e arquitectura, Soares de Sousa tem desenvolvido vários trabalhos na pintura através do recurso ao desenho e aguarela, tendo participado em várias exposições nos Açores, Madeira, continente, Estados Unidos e Canadá.

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