O cabelo despenteado de Javier Milei lembra alguém. O passado como fenómeno televisivo, também. Ser produto da reciclada extrema-direita sul-americana, idem. Mas, afinal, o líder do Partido Libertário e candidato da coligação La Libertad Avanza à presidência da Argentina é uma imitação de Boris Johnson? De Donald Trump? De Jair Bolsonaro? Ou é mais do que todos eles? Ou, pelo contrário, é menos?.Para o sociólogo, analista político e consultor argentino Carlos de Angelis, "a figura de Milei pode, com efeito, colocar-se entre essa série de líderes que emergiram na pós-globalização, no pós-Leh- mann Brothers, no pós-Obama, que derivou, desde logo, no Brexit, razão pela qual o argentino é muito comparado a Boris Johnson - nesse caso, até o lado estético, por causa da questão do cabelo despenteado, ajuda".."Quando falamos desses quatro, e de outros, nós temos, claramente, um caso de equifinalidade, termo usado em ciências sociais para definir diversos caminhos causais para o mesmo resultado, no caso, governos próximos da extrema direita e com o objetivo de desmantelamento e direcionamento do Estado para satisfazer interesses particulares", completa Vinícius Vieira, professor de Relações Internacionais da Fundação Getúlio Vargas..Para De Angelis, "com Trump, o Milei partilha o "politicamente incorreto", a capacidade de verbalizar ideias que muitos pensam, mas não dizem. A diferença é que o americano é empresário e apresentador de reality shows e o argentino apenas comentador. E o primeiro foi logo absorvido por um partido, o Republicano, e o segundo, não".."Entretanto, Trump é um protecionista que falou, sobretudo, para um eleitorado na casa dos 50, 60 anos, que se viu completamente deslocado neste novo mundo afro, woke e LGBT, tão diferente daqueles tempos industriais em que se trabalhava duramente numa fábrica e depois se comprava o automóvel e a casa. Já Milei quer sair do Mercosul e tomar uma moeda estrangeira, o dólar, para sua, por isso está num extremo muito próprio", prossegue.."Bolsonaro, ao contrário de Milei, já estava aí, foi deputado por muitos anos e, simplesmente, aproveitou a crise do PT, de quem boa parte da sociedade estava farta, por ver expandidos os direitos dos setores mais pobres", sublinha De Angelis.."Mas Milei, como Bolsonaro, falaram a uma parte da sociedade que se via sem voz e que, nas redes sociais, percebeu que afinal não era pequena, era grande, muito grande, e se uniu por esse vínculo virtual."."Milei, aliás, é produto de TV, como Trump, nesse caso. Quando uma grande quantidade de economistas, marcadamente anti-kirchneristas, começou a pedir menos Estado, ele destacou-se pelo estilo: gritava, chamava os jornalistas de burros e os demais interlocutores de zurdos [esquerdistas]. Depois, na internet, e aqui repete até certo ponto Bolsonaro, um exército inorgânico de jovens começou a reproduzir e a editar um milhão de vezes as suas aparições televisivas, aproveitando o período de ócio da pandemia, tornando-o, de vez, popular", defende o sociólogo.."E tanto Milei como Bolsonaro chamam todo e qualquer opositor de "esquerda" e "comunista"", acrescenta Vieira ao DN.."Do ponto de vista do processo político, há um messianismo comum: todas essas personagens agem como se os seus países estivessem no fundo do poço - no caso da Argentina, esse fundo do poço parece mesmo existir - e que eles os levariam para uma espécie de terra prometida", afirma o professor de relações internacionais.."Para Bolsonaro, que é tão messiânico que até usa o nome do meio dele, Messias, para o sublinhar, essa terra prometida é o passado glorioso da ditadura militar; no caso de Milei, a terra prometida é a Europa, utilizando a ideia de que a Argentina é uma Europa perdida na América do Sul, tanto que ele disse que tornará a Argentina numa Alemanha em 20 anos"..Vieira nota que "Milei, entretanto, tem uma proposta messiânica não religiosa, mas mágica, em vez do apelo aos evangélicos de Bolsonaro, usa elementos transcendentais, fala nuns cães que já morreram com os quais conversa, joga tarô para definir quem contrata, enfim, tem uma dimensão mística"..Embora concorde que "na estética pessoal Milei se assemelha a Boris Johnson, pelo cabelo despenteado", sublinha que o inglês "é, aparentemente, o mais moderado de todos estes fenómenos, até porque o forte sistema partidário britânico se sobrepõe às figuras políticas". "No Brexit, que Johnson arquitetou, entretanto, a terra prometida era o império perdido por culpa de Bruxelas - um erro, como explica qualquer historiador, porque num mundo com EUA e China, as potências europeias precisam de se unir para ter relevância". "Para Trump", sublinha o professor universitário, "o Make America Great Again [tornar a América grande outra vez] é virado para a população WASP [branca, anglo-saxónica e protestante] e para quando o país, nos Anos 50, detinha 50% da produção industrial do mundo, com subúrbios afluentes, mas segregação racial e hierarquias, essa é a terra prometida dele". As eleições na Argentina são no domingo. Contra o outsider Milei concorre Sergio Massa, peronista, de centro-esquerda e atual ministro da debilitada Economia da Argentina, pela coligação Unión Pela Patria.