A resposta à pergunta do título é um óbvio sim. Mas só o facto de a questão se colocar, e logo num país como a Nova Zelândia, serve de alerta para os desafios que enfrenta o objetivo de uma sociedade que respeite por igual homens e mulheres. Resumindo: a deputada Jacinda Ardern, de 37 anos, assumiu a 1 de agosto a liderança do Partido Trabalhista, principal força da oposição na Nova Zelândia. Apesar das sondagens não a darem como favorita às eleições de 23 de setembro, existe a possibilidade de chegar a chefe do governo. Ainda sem filhos, Ardern começou logo a ouvir perguntas sobre se planeava ser mãe em breve mesmo se fosse eleita. De início respondia de forma teórica, admitindo que conciliar trabalho e família era um desafio para muitas mulheres, envolvidas na política ou não. Até que se irritou com a insistência na pergunta.."É inaceitável, em 2017, dizer que uma mulher deve responder a essa pergunta", disse Ardern ao apresentador de TV que repetia a questão. Várias vozes saíram em apoio de Ardern, como a antiga primeira-ministra Helen Clark, que a instou a ignorar "ataques sexistas". E a comissária neozelandesa para os direitos humanos, Jackie Blue, relembrou mesmo que era proibido a um futuro empregador perguntar os planos de maternidade..Já por duas vezes a Nova Zelândia teve mulheres à frente do governo, mas nenhuma foi mãe durante o cargo. Dada a altíssima classificação do país em termos de igualdade dos sexos, seria de presumir que a questão nunca se levantaria, até porque ninguém a coloca ao primeiro-ministro conservador Bill English, de 55 anos, pai de seis filhos..Assim de repente, um primeiro-ministro ser pai em funções, recordo-me de Tony Blair. Ardern chegou a ser conselheira política do trabalhista britânico quando viveu em Londres..Por mais importante que seja um trabalho ou função, ninguém é insubstituível. Tem de haver um substituto ou um número dois capaz de assumir as tarefas. Quantas vezes isso já não aconteceu a governantes por questões de saúde. Ora, por que não poderá acontecer também por maternidade? Talvez tenha sido providencial que esta discussão esteja a acontecer na Nova Zelândia. Em termos de história das mulheres é um país que conta e muito: em 1893 tornou-se o primeiro no mundo a dar o direito de voto às suas cidadãs.