Apogeu e queda do império de Christian Lacroix

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Christian Lacroix foi responsável por dar um novo fôlego à moda na década de 80. Nenhum outro criou com tanta exuberância, opulência. Nenhum outro trouxe a riqueza de tecidos, de fantasia barroca de maneira tão artística como este costureiro francês. Quando surgiu, as críticas foram muitas, assim como os elogios.

Christian Marie Marc Lacroix nasceu a 16 de Maio, em Arles, no Sul da França. Quando era pequeno, e até ser adulto, nunca pensou ser estilista. "Lembro-me de, quando era pequeno, os professores me darem bonecas para brincar, para me entreter, e detestava a textura dos tecidos das roupas. Só queria pintar livros de colorir e fazer desenhos", afirma o estilista no seu site oficial. Estudou História de Arte na Universidade de Montpellier, de onde seguiu para a Sorbonne, em Paris, para tentar seguir uma carreira como curador num museu, mas o facto de ter conhecido a sua futura mulher, Françoise, fê-lo mudar de rumo (casaram- -se em 1974).

Decide aprender mais sobre moda na marca de luxo francesa Hermès, onde chega a trabalhar, e na corte real imperial em Tóquio, por intermédio de Jean-Jacques Picart, relações públicas de algumas das mais importantes maisons da altura. Em 1981, começa a trabalhar com Jean Patou, até 1987, ano em que cria o seu atelier de alta costura. A sua ascensão começa ainda durante o tempo que trabalha sob a chancela de Patou. Christian Lacroix tem uma visão diferente de como a moda feminina deve ser encarada - mais luxuriante, mais perfeccionista, mais colorida e mais kitsch.

"No final do século XX, a alta costura só poderia sobreviver se ela encontrasse o equilíbrio entre o pronto-a-vestir de luxo, com que ela não se confunde, e uma criação radical, que também não é o seu papel, porque a nova clientela também não escapa a certos códigos. O luxo, em si mesmo, deve conduzir à individualidade, à diferença e ao dandismo, e não deve ser sinónimo de aburguesamento esteticamente desactualizado", sublinha o costureiro. A partir de 1981, Lacroix começa a surpreender pela notória diferença na forma como vê a moda, rodeada de algum humor. O corpete volta a ter uma nova vida nas suas mãos, quase um século depois de as mulheres terem lutado muito pela sua abolição. Claro, que esta peça de vestuário não é usada hoje como naqueles tempos, nem faz sofrer as senhoras de hoje, como as de então.

Mas, retomando a história de Christian Lacroix, em Janeiro de 1987 recebe o prémio Most Influential Designer, pela CFDA, atribuído a um criador estrangeiro, e abre a maison de alta costura, com o apoio do Grupo LVMH (Moet Hennessy Louis Vuitton S.A.), por ter chamado a atenção de Bernard Arnault, actualmente um dos administradores da empresa.

Mas esta relação, entre o grupo LVMH e o estilista, não foi pacífica. Se, por um lado, Lacroix era a lufada de ar fresco de que a moda precisava, por outro não era rentável. Em 1989, criou uma linha de pronto-a--vestir e de acessórios - sapatos, carteiras, jóias, lenços, óculos e gravatas. Mas nem sempre com sucesso. Neste mesmo ano abre várias lojas em Paris, Arles (terra natal), Aix--en-Provence, Toulouse, Londres, Genebra e Japão.

Na década de 90, decide lançar a linha Bazar (roupa desportiva), a Jeans, a Art de la Table, em parceria com a Christofle. Em 1999, aventura-se no mundo da perfumaria, com Christian Lacroix, com aromas florais, o que infelizmente não correu bem devido ao design do frasco. Independentemente da magnífica harmonia entre a fragrância floral e as especiarias, juntando aromas de Inverno e de Verão, uma opção propositada, o frasco era suposto ter a imagem de uma pedra achatada, mas o resultado final foi o de um coração acabado de ter um ataque. Comercialmente não resultou devido à imagem. Em 2007, criou duas fragrâncias exclusivas para a Avon Cosmetics: o Christian Lacroix Rouge, para senhora, e o Christian Lacroix Noir, para homem.

As exigências de mercado começam a mudar e o Grupo LMVH começa a exigir outras contrapartidas: lucro. Lacroix é um artista e continua a querer fazer o trabalho de sempre - fazer roupa diferente, para clientes que apreciam o seu estilo, com tecidos luxuosos, cravejados de pedras preciosas, detalhes requintados e que só podem ser usados em momentos muito especiais. Esta começa a ser, então, uma das mais frequentes críticas ao seu trabalho - Christian Lacroix não consegue adaptar-se ao tempos modernos e fazer roupa para a mulher que trabalha. Isto é, adaptar o seu estilo, ou ter um outro, que a mulher moderna e cosmopolita possa usar no seu dia-a-dia.

Em 2005, a LVMH vende a Lacroix ao Grupo Falic, uma empresa norte-americana de retalho. Durante algum tempo a relação entre ambos é relativamente pacífica devido à injecção de dinheiro, mas as coisas começam a complicar-se quando o costureiro não corresponde às expectativas do grupo.

Em Maio de 2009, Christian Lacroix anuncia ao mundo que está falido, para fugir aos credores, e anuncia o seu último desfile, com a ajuda de amigos e restos de tecidos que tinha no seu atelier, em Paris. Foi um sucesso e uma emoção.

No entanto, o fim ainda pode não estar anunciado, pois este homem da moda, que chegou a ser um dos melhores criadores de moda do mundo do século XX, que vestiu muitas celebridades internacionais - Madonna, Christina Aguilera -, que ensinou estilistas como Jean-Paul Gaultier e Nicolás Vaudelet (El Caballo), é considerado pelo Governo francês "património fundamental da cultura" francesa, segundo Christian Estrosi, ministro da Cultura. O próximo mês de Setembro irá trazer notícias sobre o futuro da casa Lacroix, visto três grupos empresariais estarem interessados em comprar a marca, sendo um deles italiano. O DN está atento ao futuro da maison Christian Lacroix!

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