Amolador há 40 anos, António percorre o país de lés a lés para ganhar a vida com a arte que aprendeu com o avô e que só abandonará quando faltar força para pedalar na bicicleta e rodar o esmeril..Da gaita de beiços, de plástico e vermelha e branca a que António Loureiro chama de "apito", saem diferentes sonoridades que anunciam a chegada..A melodia do amolador de 59 anos ouve-se há dias em Viana do Castelo. António sopra com força, enquanto empurra a bicicleta que herdou do pai, para que o som se espalhe por ruas e ruelas dos bairros mais habitados da cidade.."Só deixarei de ser amolador quando não puder mais. Faço isto com muito amor e muito carinho. Não troco esta profissão por mais nenhuma", contou à Lusa, enquanto esperava por clientes..O ofício de "pedalar em seco" para fazer rodar o esmeril, a pedra dura que afia facas, tesouras, chapéus de chuva, sombrinhas, alicates de unhas, tesouras de relva e da poda, começou com o avô, passou para o pai, depois para António Loureiro e para os dois irmãos.."Também arranjo tachos e panelas, mas agora já não aparecem. Estão em vias de extinção como os amoladores. Se não houver força das pernas, acaba. Isto não vai durar sempre", afirmou..Nascido no Alentejo, em Montemor-o-Novo, no distrito de Évora, António conhece o país todo graças à "arte" que chegou à terceira geração, mas que nenhum dos três filhos quis seguir..Um formou-se em enfermagem, a rapariga é tradutora de línguas e o outro é segurança..Quando os dois rapazes "ainda eram novitos", António tentou ensiná-los para garantir a passagem do testemunho, mas os "miúdos nunca penderam" para o ofício.."É uma profissão que não rende muito. Se se ganhar para comer, come-se. Se não se ganhar, não se come. Não é uma coisa certa. Posso andar a tarde toda e não me aparecer nada para afiar, ou se aparece uma faca ou uma tesoura dá-me três euros. É complicado, para mais para a juventude", apontou..A carrinha onde se desloca de terra em terra, e transporta a bicicleta com mais de 40 anos, é também o porto de abrigo para as noites. Serve para dormir, mas para as refeições António recorre aos restaurantes que já conhece e onde come pelo melhor preço..O amolador alentejano programa cada temporada de trabalho antes de partir de casa, em Almada, no distrito de Setúbal..Esta última campanha começou na Figueira da Foz e vai até Monção, também no distrito de Viana do Castelo.."Depois regresso a Almada, estou uma semana ou 15 dias em casa e depois vou para a zona de Trás-os-Montes, Viseu, Vila Real, Peso da Régua, Chaves e volto para baixo, outra vez. Ando assim", explicou..Noutros tempos, quando andava a aprender o ofício com o avô, chegava a estar fora de casa três, quatro meses..Agora o tempo que permanece em cada localidade depende de como corre o negócio. Em Viana do Castelo, por onde tem estado nos últimos dias, o negócio tem dado "para as despesas", mas nem o peso da idade o faz trocar de profissão.."Com quase 60 anos, vou fazer o quê? Não sei ser pedreiro, não sou doutor de [fazer] chapéus, facas e tesouras. Não sei fazer nada" a não ser amolar, observou, apitando a gaita de beiços e partindo em busca de mais clientes..Com António Loureiro, a sua oficina andante, que já teve que levar algumas peças novas, continua a rodar o país, de norte a sul, sempre à procura de clientes com facas ou tesouras para afiar.