O despertador do António tocou à hora habitual. "Tocar", neste caso, é o verbo adequado para descrever o conjunto de sons que todos os dias tira António dos braços de Morfeu..Graças às maravilhas da tecnologia, importou para o telemóvel uma melodia suave, imitação perfeita das ondas a espraiarem-se no areal, à mistura com o chilrear harmonioso dos pássaros da manhã. Menos eficaz, mas bem melhor do que o toque anterior, um canto de galo que quase incompatibilizou António com todas as formas de galináceos - uma pena para quem apreciava deliciar-se com frango (do campo, obviamente, com a garantia de alimentação exclusiva a milho, cultivado sem o recurso a químicos)..O pequeno-almoço cumpriu à risca a regra da casa: duas torradas de pão integral, barradas, sem excessos, com margarina vegetal, gordura zero, com garantia suplementar de combate ao colesterol. Um copo de leite ma- gro morno (aquecido no fogão que sobreviveu à "expulsão" do microndas depois da insta- lação do painel de energia solar) e uma maçã de agricultura biológica completaram a re-feição..O ritual do duche cumpriu-se dentro do tempo preestabelecido pelas recomendações de poupança de água..A roupa do dia foi escolhida sem preocupações especiais: todo o guarda-roupa de António tinha sido adquirido em estabelecimentos que se orgulhavam de vender apenas artigos fabricados em unidades que garantiam o respeito pela legislação aprovada pela Organização Internacional do Trabalho..A deslocação para o emprego fez-se no carro recém-comprado, com recurso a linhas de crédito especiais para veículos que consomem combustíveis não poluidores..À chegada à empresa, lançou um olhar sobranceiro a um grupo de colegas que, ainda na rua, olhos de culpa, fumavam um cigarro apressado. "Desgraçados", pensou, "quero ver o que vos acontece no Inverno, quando vier a lei que protege os edifícios dos fumadores, num raio de 200 metros.".Não conteve um sorriso de satisfação quando recordou a reunião de condóminos em que tinha conseguido fazer aprovar a proibição total do fumo no prédio onde morava há meia dúzia de anos. Não tinha sido fácil bater os viciados do primeiro andar, mas a sua persistência retórica ("bendita escola das assembleias do Bloco...") acabou, já de madrugada, por derrotar os vizinhos hesitantes e esgotados. E os do primeiro tiveram de "baldar-se" para outra freguesia, onde imperasse o vício. Graças a António, o prédio era agora "verde"....As horas de trabalho decorreram sem novidade. Os sorrisos e a solicitude habitual para com os chefes, a autoridade cáustica para com os subordinados..A meio da manhã, uma breve pausa de dez minutos para uma chávena de chá verde e para as vitaminas que prometem a vida (quase) eterna. Ao almoço - as saladas do costume no restaurante do costume - uma animação rara: para escândalo da sala, um tipo mal-encarado acendeu um cigarro à mesa. Ninguém se atrevia a ultrapassar as expressões de reprovação e os sussurros, até que António, mastro da cidadania, exigiu ao gerente a presença de um polícia. O infractor não se atemorizou. Lá veio um robusto agente da autoridade, que "passou" a multa perante os aplausos entusiásticos da horda de "grilos" devoradores de alfaces, tomates e outros vegetais com nomes estrangeirados..Sensação plena de dever cumprido, Antóno regressou ao trabalho para mais uma tarde rotineira. Por uma vez, tinha programado sair à hora oficial..Esperava-o, ao princípio da noite, uma tarefa difícil: tinha-se comprometido a conseguir, nas eleições para a junta de freguesia, uma lista respeitadora da paridade. Perante uma sucessão infindável de recusas, restavam-lhe duas viúvas idosas e semi-inválidas, que hesitavam em dar o sim definitivo..Enfim, se as coisas corressem bem, regressaria a casa ainda dentro do horário marcado para a habitual refeição ligeira, seguida de meia hora de leitura de uma das obras recomendadas pelo Conselho Superior, ou seja, aquelas que não ofendiam religiões ou culturas, próximas ou distantes..Admirável mundo, o do António.