Foi em 2014 que a editora Taschen celebrou a obra fotográfica da americana Annie Leibovitz com um dos títulos da chamada série SUMO, em que encontramos também volumes dedicados a fotógrafos como Helmut Newton, Sebastião Salgado ou David Bailey. A saber: um álbum gigantesco, de várias centenas de páginas, que necessita de um suporte metálico especial para sustentar os seus 26 quilos. Recentemente, o livro - que se intitula simplesmente Annie Leibovitz - reapareceu numa edição mais leve. Enfim, a noção de leveza é, no mínimo, discutível: estamos perante 556 páginas, em formato 27x39 cm, pesando 5,8 kg..Seja como for, incomparavelmente mais impressionante do que a dimensão do livro, sem esquecer a logística que exige (o novo "pequeno" volume não será um objeto ideal para descobrir sentado num sofá), é a revelação de um fascinante universo criativo, aqui coligido na sua diversidade, mesmo quando podemos reconhecer algumas das imagens mais célebres ou mais difundidas..Nascida a 2 de outubro de 1949, em Waterbury, no estado do Connecticut, Leibovitz impôs-se como uma das mais notáveis retratistas da fotografia contemporânea. É um rótulo que, de modo inapelavelmente redutor, mas historicamente incontornável, se liga de imediato com aquele que será, por certo, o seu retrato mais conhecido: foi capa da edição de 22 de janeiro de 1981 da revista Rolling Stone e nele vemos Yoko Ono e John Lennon - ela com uma camisola preta e calças de ganga, ele, nu, abraçando-a..A serena intimidade da pose dessa imagem icónica ficaria para sempre contaminada pela tragédia: a fotografia foi obtida em Nova Iorque, no dia 8 de dezembro de 1980, poucas horas antes de Lennon ser assassinado à porta do lendário edifício The Dakota, onde o casal residia. Para lá da carga emocional inscrita na fotografia, a sua simples existência decorre de um princípio de trabalho que pontua toda a trajetória de Leibovitz: ela é, de facto, alguém que sabe aproximar-se daqueles que, da música à política, passando pela moda ou pelo cinema, se distinguem por uma certa "imagem de marca", embora sabendo fotografá-los para além (ou aquém) de qualquer pose banalmente comercial, promocional ou estereotipada..Através das especificidades do seu olhar, a trajetória de Annie Leibovitz não pode ser dissociada de um importante enquadramento jornalístico. Assim, o início da sua atividade profissional como fotógrafa, em 1970, quando ainda estudava no Instituto de Arte de São Francisco, está ligado à Rolling Stone, publicação cuja integração na vasta e contrastada paisagem da cultura pop sempre valorizou a imagem..Entenda-se: não a imagem como mera "ilustração" dos textos ou reprodução automática de retratos mais ou menos oficiais dos artistas comentados e entrevistados. No interior da Rolling Stone, assumindo em 1973 o cargo de editora da secção de fotografia (até à sua saída da publicação, em 1983), Leibovitz consolidou um estilo muito pessoal que, em boa verdade, não se distingue tanto pela sua estética, antes pela ética de quem quer, antes do mais, estabelecer alguma relação com as singularidades da pessoa, ou pessoas, que tem à sua frente..É imensa a lista de nomes que fotografou, da música e, em geral, do mundo do espectáculo (antes e depois da ligação com a Rolling Stone). Sem qualquer ordem particular, lembremos os exemplos de Andy Warhol, Nicole Kidman, Arnold Schwarzenegger, Michael Jordan, Mick Jagger, David Byrne (na capa do livro), Patti Smith (na contracapa), Miles Davis, Leonardo DiCaprio, Scarlett Johansson, Clint Eastwood, Angelina Jolie, Bruce Springsteen....São retratos que, por vezes, evocam ambiências que não são estranhas à carreira dos retratados. Veja-se o exemplo de Jack Nicholson, fotografado em 2006, em Los Angeles, numa pose e num cenário (Mulholland Drive) que podemos associar à sua personagem do detetive J. J. Gittes em Chinatown (1974), de Roman Polanski, e O Caso da Mulher Infiel (1990), que ele próprio realizou. Ou, em absoluto contraste, observe-se Ellen DeGeneres, em 1997, numa praia do Hawai, refazendo a iconografia tradicional de uma vamp, agora numa bizarra aliança de paródia e farsa..Há uma naturalidade ambígua no olhar de Leibovitz. A proximidade das estrelas retratadas, com quem mantemos uma suposta familiaridade, surge transfigurada noutra "coisa" que sentimos que foi gerada durante o próprio ato em que o retrato nasceu. Hans Ulrich Obrist, diretor artístico da Serpentine Gallery, em Londres, refere isso mesmo na introdução a uma conversa com a fotógrafa publicada na edição britânica da revista GQ (nov. 2011) e reproduzida neste livro. Em vez de falar de naturalidade, ele utiliza a palavra "honestidade" para resumir todo um método de olhar e trabalhar: "As suas fotografias, superlativas na sua honestidade, vão desde a reportagem captada espontaneamente até retratos conceptuais rigorosamente preparados, requintados na sua delicada intimidade, mas muitas vezes também profundamente viscerais no seu impacto.".Num sugestivo contraponto, Obrist conclui a entrevista questionando Leibovitz sobre o eventual papel do acaso nesses empreendimentos de rigorosa encenação. Ela responde que o acaso "é tudo". E acrescenta: "Quando vou para uma sessão, penso naquilo que vou fazer, tenho uma ideia, tenho um plano, e espero pelo acaso. Espero que aconteçam outras coisas. No retrato, em particular, não estou só - estou a trabalhar com outra pessoa. E espero que aconteçam coisas.".A partir de 1983, depois da Rolling Stone, Leibovitz iniciou uma relação de trabalho com a Vanity Fair (que ainda hoje se mantém). Por essa altura, a revista atravessou um processo de profunda transformação, mantendo uma atenção especial ao universo do entertainment e às suas figuras mais emblemáticas, ao mesmo tempo investindo cada vez mais em trabalhos de investigação sobre as convulsões da economia e da política..São dela algumas notáveis capas desdobráveis, em três partes (duas delas como tal reproduzidas nesta edição), com que a Vanity Fair destacou as personalidades marcantes de um determinado ano de produção em Hollywood. Whoopi Goldberg numa banheira cheia de leite, Tony Curtis e Jack Lemmon evocando a ambiguidade sexual das suas personagens no clássico Quanto Mais Quente Melhor (1959), ou ainda John Cleese, literalmente de pernas para o ar, são outros casos exemplares desse período em que também manteve uma colaboração regular com a Vogue. Em vez da simples imitação mitológica, redescobrimos as estrelas através de uma humanidade inesperada, ora grave, ora irónica, resistente a classificações definitivas..Na longa atividade de Leibovitz, encontramos vários retratos como o de John Cleese, alheios a qualquer racionalização "temática", existindo antes como celebração de um momento de clara cumplicidade entre quem fotografa e quem é fotografado. O encontro com Steve Martin (autor do divertido prefácio deste álbum) pode servir de exemplo: a sua encenação como pintor cujas pinceladas de tinta negra se espalham tanto pela tela como pelo seu fato ilustra, afinal, um impulso criativo que tem qualquer coisa de comédia do absurdo - registada em 1981, a imagem parece antecipar, nem que seja de forma irónica, o retrato do pintor Keith Haring (reproduzido na caixa de cartão do livro) que Leibovitz realizaria cinco anos mais tarde..Leibovitz gosta de citar o fotógrafo Robert Frank (1924-2019) como uma das primeiras inspirações para o seu trabalho. Há algo de paradoxal na referência ao autor desse livro seminal que é Os Americanos (1958): fotografando gente anónima, como Frank, ou celebridades, à maneira de Leibovitz, ambos se distinguem pela mesma exigência - que é também uma forma de disponibilidade - na preservação daquilo que faz de cada ser humano uma entidade irredutível a qualquer um dos seus semelhantes..No caso de Leibovitz, tal atitude pode gerar retratos como o da rainha Isabel II (fotografada no Palácio de Buckingham, em 2007), ou um inusitado interesse por objetos que se transfiguram em espantosas "naturezas mortas" - a fotografia da mesa de trabalho de Virginia Woolf, na Monk"s House (onde a escritora viveu com o marido), possui a vibração carnal de algo que, afinal, tende para a abstração. Assim acontece também nos maravilhosos retratos de Susan Sontag (1933-2004), a autora de Contra a Interpretação que partilhou a vida de Leibovitz a partir de finais da década de 1980: a sua transparência é também uma forma de preservar uma dimensão secreta que já não pertence a nenhuma imagem..dnot@dn.pt