O título desta crónica esteve para ser "Como é que o pai soube que elas tinham morrido?". Assim mesmo, com aspas e um ponto de interrogação, porque foi o que a Mariana me perguntou quando viu a fotografia de Otto Frank e lhe expliquei que ele tinha sobrevivido à Segunda Guerra Mundial e regressara no verão de 1945 a Amesterdão em busca da mulher e das duas filhas. Minto se disser que não fiquei comovido, tanto pela pergunta da minha filha de quase 7 anos como por imaginar o desespero de Otto quando alguém o informou que nem Edith, a mulher, nem Margot e Anne escaparam aos campos de concentração. A judia Anne, tão famosa por causa do diário que hoje há filas para visitar a sua casa-museu, morreu de tifo em Bergen-Belsen, com 15 anos..Não foi a primeira vez que visitei a Casa de Anne Frank. Nem sequer a primeira vez que a Mariana lá foi comigo, a mãe e o irmão, como agora. Mas ao Daniel expliquei-lhe a tragédia dos Frank tinha ele 13 anos e na escola já lhe haviam falado da rapariga do diário. Foi quando cá trouxe antes a Mariana, mas com 2 anos ela nada percebeu, claro. Nem sequer ficou com memórias..Descobri que explicar nazismo, perseguição aos judeus, fuga da Alemanha para a Holanda, guerra mundial, ocupação militar e campos de concentração é tarefa impossível quando se conversa com uma menina de 6 anos que tem a sorte de crescer em Portugal, nesta Europa democrática e pacífica do século XXI. Mas percebi como a incomodou a história de uma criança um pouco mais velha (Anne tinha 10 anos quando começou a guerra, 13 quando iniciou o diário) que teve de viver escondida na parte de trás do prédio onde antes o pai trabalhava para que não fossem presos e deportados como aconteceu a milhões de judeus por esta Europa fora. A porta secreta, que dava acesso ao esconderijo, por trás de uma estante de livros, causou grande curiosidade à Mariana, assim como o minúsculo quarto onde Anne viveu dois anos e onde escreveu muitas das reflexões que passadas a livro têm impressionado gerações de jovens e não só, como mostram as edições em diferentes línguas na foto que acompanha esta crónica..Otto, libertado pelo Exército Vermelho, não encontrou a família, mas Miep Gies, uma das amigas holandesas que tinham ajudado a esconder os Frank, entregou-lhe os cadernos de Anne que tinham ficado na casa quando foram descobertos e levados pelos nazis. Terá sido para o pai uma surpresa a maturidade daquela menina que, confessa no diário, queria ser jornalista ou escritora. Para milhões de leitores também, como testemunha num filme que é exibido na Casa de Anne Frank o falecido Nelson Mandela. Diz o antigo presidente sul-africano, herói da luta contra o regime racista do apartheid, que ele como outros presos de Robben Island encontraram encorajamento no diário escrito pela menina que vivia junto aos canais de Amesterdão..A Mariana pediu-me no fim para comprar dois postais com fotografias de Anne Frank, uma dela na escola, outra a última conhecida, com 12 anos. E escreveu no livro de homenagem, com letrinhas da primeira classe, que "Anne era muito simpática".