Angola para sempre

<p>Luísa Palma</p> <p>Luanda, Angola</p>
Publicado a
Atualizado a

Luísa Palma é angolana de coração. Nasceu no Porto mas foi em Luanda que cresceu, estudou, casou e teve filhos. De lá traz as lembranças de uma vida boa, cheia de amigos e de liberdade. «Vivia em Luanda quando, em 1974, o meu filho mais velho encontrou uma bala e começou a chupar como se fosse um rebuçado. Havia-as por todo o lado e ele estava a brincar com os filhos de uns vizinhos no jardim, quando vieram dizer-me que o Nuno tinha engolido uma bala», lembra Luísa Palma. Como já falava, Luísa perguntou-lhe se era verdade, mas o menino descansou-a e respondeu que não. «Passado um bocadinho chegou ao pé de mim e disse-me que a tinha mesmo engolido. Assustada, voltei a perguntar para confirmar: "Nuno, engoliste a bala?". "Não, não engoli", foi a resposta. Isto repetiu-se mais uma ou duas vezes. Dizia-me que sim, mas se eu perguntava, respondia que não. Já não sabia o que pensar. Passados uns dias, telefona-me a minha sogra a dizer que a bala tinha "saído".» História de um tempo em que a «vida boa», tal como a tinha conhecido, acabara e em que à noite era preciso ter atenção às balas que voavam, e de dia às que ficavam perdidas no chão. Ainda assim, Luísa e o marido permaneceram até 1987 em Luanda, «acreditando que ia melhorar». Na bagagem trouxeram a vida acumulada ao longo de 38 anos e muitas memórias.

«Nasci no Porto mas aos 2 meses fui para Angola, porque tanto a família da minha mãe como a do meu pai estavam lá. A minha irmã já nasceu na Casa de Saúde de Luanda, que foi inaugurada perto dessa altura», conta Luísa Palma, hoje a viver no concelho de Oeiras. «O meu pai foi tomar conta dos negócios do meu avô. Só voltou ao Porto para casar, mas regressou a Luanda de seguida.» A mãe dava aulas de Ciências e de Matemática e o pai era responsável pela gestão de vários terrenos, por uma fábrica de sabão e uma loja de comércio de produtos importados. «Mas em pouco tempo ficou sem nada.» Mais tarde, veio a ser presidente da Associação Comercial de Luanda, foi dirigente do Futebol Clube de Luanda, uma sucursal do Futebol Clube do Porto, presidente da associação de futebol e, depois, de basquetebol.

«Cresci no clube. Ao fim-de-semana era a patinagem, os jogos de basquetebol e de futebol e, claro, as festas.» Guarda doces memórias da existência despreocupada passada em casas abertas para todos, cujas janelas só se fechavam de noite e as portas não se trancavam. Com o grupo de amigos de infância, criados no Bairro Miramar, ia de patins para a escola, que tinha um pequeno espaço preparado para deixar guardado este meio de transporte. À saída, o passeio era dado até ao jardim ou à praia, onde a tarde era consumida em brincadeiras e conversas, em mergulhos ou a fazer vela na baía de Luanda.

Ao fim-de-semana o programa alterava-se um pouco, mas não a companhia. «À sexta-feira e ao sábado íamos à sessão de cinema das nove, comíamos qualquer coisa e voltávamos para a sessão da meia-noite. Quando terminava íamos para casa de alguém fazer uns bifes...» Tudo era pretexto para os amigos se encontrarem e estarem juntos. «Quando começámos a trabalhar passámos a ir mais para as discotecas do que para casa uns dos outros. Uma delas tinha à entrada um segurança que dizia sempre: "Só entra quem tem gravata." Mas, às vezes, quando aparecia um rapaz mais matulão sem gravata, ele acrescentava: "Só entra quem tem gravata, mas quem não tem entra também."»

Luísa Palma saiu do liceu no quinto ano e, para acompanhar o percurso de uma grande amiga, fez a Escola Comercial. Na altura em que estava a terminar, diversas instituições bancárias abriram sucursais em Luanda. «Era moda irem escolher as meninas para estarem nos balcões. Não sei como, fui parar ao Banco Totta, assim como muitas amigas de liceu. Tinha 19 anos quando comecei a trabalhar.»

Aos 22 anos, Luísa casou com Mário Palma, que também fazia parte do grupo de amigos: «Em poucos anos estávamos todos casados e com filhos pequenos.» E continuavam juntos.

«A primeira vez que vim a Portugal já trazia o meu filho pequeno e estava grávida da minha filha. Cheguei no dia 2 de Abril de 1974.» Na manhã de dia 25, preparava-se para sair de casa, mas os alunos regressavam das escolas e avisaram que algo se passava. «Eles diziam "não há aulas. Vão todos para casa, que há guerra em Portugal".» Luísa estava no Porto com a família e só à noite é que souberam do golpe pela televisão. «Tinha passagem de avião para regressar a Luanda para dali a dois meses, mas apanhei o primeiro avião que partiu para Luanda, a 30 de Abril. Só pensava que, se ficasse, ia ficar separada da minha família.»

Luísa e o marido ficaram até 1987, mas à semelhança do que acontecera com inúmeras outras famílias, os seus filhos tinham ido viver para Portugal com os avós. «Enquanto lá estivemos assistimos ao desenrolar dos acontecimentos. Tudo se foi deteriorando e a vida tornou-se mais complicada. Além disso, os meus filhos estavam em Lisboa e não tinham hipótese de vir ter connosco. Acabámos por decidir ir para Portugal.» Os amigos também foram voltando, mas espalharam-se pelo mundo e por Portugal. «No fim-de-semana passado fizemos um almoço com antigos atletas de Angola. Havia pessoas que não via desde 1975», conta Luísa. Já há mais reuniões prometidas, mas um reencontro como este já não se repete com a mesma intensidade. «Foram uns abraços, uma comoção indescritível.» Durante algumas horas voltaram a ser os meninos do Miramar, a apanhar sol na baía de Luanda.

Artigos Relacionados

No stories found.
Diário de Notícias
www.dn.pt