«Afasta-te dos homens de olhos verdes, nunca te cases com nenhum», dizia-lhe a avó, ancorada numa crença nascida da história de uma tia, a quem a cor da esperança nos olhos do marido trouxera antes desalento. E Laura Machado, como neta mais velha, obedeceu religiosamente a um conselho carregado de experiência e amor. Seguiu a indicação à risca e, quando, no assalto de Carnaval de 1958, conheceu João Mendonça, um simpático rapaz de olhos verdes deu-lhe «uma corrida». Valeu-lhe a sabedoria materna e, cinco anos passados, casavam na Igreja de Sé Catedral, em Nova Lisboa, hoje Huambo. Entretanto, já ele tinha conseguido provar o seu amor e dedicação. «Uma vez, estava mobilizado em Camabatela quando, cheio de saudades minhas, meteu-se numa camioneta de carga e veio até Nova Lisboa, só para passar o fim-de-semana. Demorou tanto tempo que, quando chegou, o fim-de-semana já tinha acabado e ele tinha de voltar.» Lá se «arranjou uma doença» para poder descansar e gozar a presença da namorada. .Durante os cinco anos de namoro tinham hora marcada para se encontrarem: «Das seis às sete da tarde, na varanda de casa dos meus pais.» Os tempos eram outros e o respeito aos mais velhos impedia qualquer deslize. «Mas nunca estivemos sozinhos. Sempre que saíamos ao cinema ou a outro sítio qualquer tínhamos de estar acompanhados.» Amigos, família, as duas irmãs ou o irmão, «um verdadeiro polícia», estavam sempre presentes. «A primeira vez que fiquei sozinha com o meu marido foi na manhã do nosso casamento, quando fomos confessar-nos à igreja», conta. O tempo que estiveram separados, antes de casar - pois João esteve em Luanda e em Camabatela - foi encurtado pelas longas cartas escritas e telefonemas muito esperados: «Era assim que se faziam as coisas naquele tempo.».Laura nasceu em Nova Lisboa e aí viveu a maior parte da sua vida. «A minha mãe era de Sá da Bandeira, onde passei férias fantásticas, e o meu pai nasceu em Silva Porto (Kuito).» O avô paterno, transmontano, e a avó materna, de origem madeirense - da família dos Perestrelo - fizeram que fosse mais fácil coser as frágeis raízes que a ligavam à metrópole, quando foi necessário começar tudo de novo em Lisboa, longe da sua terra natal. .Estudou na Escola Industrial e Comercial Sarmento Rodrigues, em Nova Lisboa, onde tirou o curso comercial, e trabalhou na Companhia União de Cervejas Angola - Cuca. Ao fim de cinco anos na empresa eram concedidos quatro meses em Portugal: «Tive muita sorte, vim duas vezes com o meu marido e as minhas filhas, e até aproveitámos para viajar pela Europa. Naquela época tínhamos essa possibilidade.».«Saudades de tudo».De África tem «saudades de tudo», mas principalmente do à-vontade em que se vivia e das paisagens. «Adorava que as minhas filhas tivessem tido a mocidade que eu tive. Fiz teatro e revista, até cantei na Rádio Clube de Huambo.» Laura recorda a experiência que foi contracenar com o actor Vasco Santana. «A companhia de teatro dele foi até ao Cinema Ruacaná, em Nova Lisboa, apresentar uma peça chamada O Domador de Sogras», uma comédia em três actos, adaptada do original alemão por Félix Bermudes, João Bastos e Hermano Neves: «Era a mesma peça que nós tínhamos em cena. O Vasco Santana achou piada e deixou entrar metade do nosso elenco no deles. Eu fazia de secretária, uma personagem com um papel muito pequeno, e fui uma das escolhidas.».Ao longo de todo o ano o ambiente era festivo. «Fazíamos arraiais e assaltos de Carnaval. Toda a gente se conhecia e, desde que os meus pais soubessem com quem estávamos, podíamos ir para todo o lado.» As memórias surgem umas a seguir às outras: «Era uma terra de bailes, todos os fins-de-semana havia um. Bailes a sério, com conjuntos musicais e para os quais nos vestíamos a rigor. A quantidade não se devia apenas à existência de muitos clubes, mas também porque o meu pai, que foi vereador da câmara e presidente do Clube do Atlético, organizava muitas coisas às quais tínhamos de assistir.» .Em 1975 acabou-se o sonho. A guerra subia de tom, a vida começava a tornar-se complicada e, com as filhas pequenas, sentiram que era arriscado continuar. Vieram para Portugal e, um ano depois, rumaram ao Brasil, onde ainda ficaram três anos. Mas nesse país, que outrora desejara, Laura sentia-se órfã duas vezes: estava longe da terra natal e longe do resto da família. Regressaram e assentaram arraiais nos arredores de Lisboa. .Nunca mais voltou. Não teve vontade. Só agora, estimulada pelo irmão que navega na internet à procura de imagens, de mapas cada vez mais reais e de qualquer outra informação, é que começa a pensar em visitar Nova Lisboa e Sá da Bandeira, onde ainda tem família. «Os anos vão passando e vou-me lembrando cada vez mais das coisas. Quando viemos, procurei esquecer, mas agora até sonho com os percursos que fazia de carro, ou com as casas da nossa rua. Às vezes fecho os olhos e é assim que faço as minhas viagens até lá.»