"Gostamos de trabalhar consigo." Esta declaração do primeiro-ministro ao desejar Boas- -Festas e Feliz Ano Novo ao Presidente da República foi vista com algumas reticências pela oposição e dentro do próprio PS. O deputado socialista Medeiros Ferreira foi o primeiro a dizer, no seu blogue bichos-carpinteiros.blogspot.com que seria de "evitar estados de alma nas relações entre dois órgãos de soberania". .E, ao DN, o deputado acrescenta que a apresentação de Boas-Festas por parte do Executivo ao PR é "um acto protocolar" a que José Sócrates quis juntar uma "atitude de cooperação institucional". Medeiros Ferreira considera mesmo que a "tónica política" foi demasiado acentuada numa situação formal como aquela. "As relações entre órgãos de soberania devem ser simples e enxutas", sem deixarem transparecer os tais "estados de alma", mesmo que eles sejam genuínos. .Também no seu blogue causa-nossa.blogspot.com, Vital Moreira ironizava: "Amor presidencial com amor governamental se paga". O constitucionalista aludia indirectamente à entrevista que Cavaco Silva deu em Novembro à SIC e na qual reconhecia ao Governo "um espírito reformista" e elogiava a prestação governamental de José Sócrates. ."Mas insisto em pensar que as relações entre Belém e São Bento devem dispensar arroubos e preservar um salutar distanciamento institucional, tanto na convergência como na divergência", escreveu Vital Moreira..O gabinete de imprensa do PCP, que tem posto fervor nas críticas ao Governo, escusou-se a comentar as palavras de Sócrates em Belém nas vésperas do Natal. Mas o comunista Ruben de Carvalho interpretou-as: "Tenho a ideia de que, com essas palavras, o primeiro-ministro está a forçar o apoio institucional porque lhe vai faltando o apoio em termos de opinião pública. Não creio é que o Presidente da República tenha gostado muito dessa colagem...".De facto, Cavaco Silva distanciou-se discretamente de tão efusivo cumprimento natalício. Agradeceu os votos, mas salientou que interpretava o acto tradicional como "o reflexo de um espírito de leal cooperação, de bom relacionamento que deve existir entre o PR e o Governo". E acrescentou: "Sem que seja posto em causa o princípio de separação de poderes.".Ruben de Carvalho afirma que o primeiro-ministro quer, à viva força, salvaguardar o entendimento com o inquilino de Belém à medida que os protestos e as manifestações sociais se vão avolumando nas ruas..Francisco Louçã leu nas palavras do chefe do Governo uma extensão da sua mensagem de Natal aos portugueses. "O primeiro-ministro e o PR têm feito um esforço muito grande para dar corpo à cooperação estratégica, que coloca um problema novo à política portuguesa.".O líder do Bloco de Esquerda diz ser "inédito" este tipo de Bloco Central que exclui o Partido Social Democrata, gerador de um grande espaço político que provocará fortes modificações ao longo dos anos na política nacional. .Louçã atribui à oposição um papel mais exigente, no combate a esta esquerda liberal, protagonizada por José Sócrates e sufragada por Cavaco Silva. E é no PS que adivinha as maiores divisões. "Obriga os seus militantes e apoiantes a colocarem-se dentro ou fora deste bloco central defensor das políticas sociais e económicas liberalizantes.".No PSD, o tal partido que Louçã diz agora excluído do bloco central, a declaração de Sócrates em Belém soou a mera melodia de de Natal, embora entoada num ritmo estranho. O vice-presidente do partido, Azevedo Soares, criticou de forma subtil o "gostamos de trabalhar consigo". "Usou as palavras que sabe dizer. Não as comento. O gosto não se discute!..." Ou seja, um gosto que não partilha por entender que a ocasião era a menos apropriada para uma declaração política daquele género. Mas, sublinha, "acredito na generosidade e boa-fé do primeiro-ministro"..Já o presidente da Câmara de Sintra, o social-democrata Fernando Seara considera completamente normal o bom relacionamento entre Belém e São Bento. "Os que criticam as palavras do primeiro-ministro são os que consideram que Belém deveria ser um centro de oposição, o que não deve ser." Esses são os que, afirma, ainda têm como modelo um outro presidente (que não disse o nome, mas como é óbvio se trata do socialista Mário Soares). "O primeiro- -ministro e o Presidente da República assumem desassombradamente a cooperação estratégica. O que não quer dizer que o PR seja um mero subscritor das propostas do Governo. Não pode é haver um clima de permanente conflito."