Amor aos pedaços versão londrina 

Vinda do reino das comédias dramáticas ou românticas que cumprem uma certa tradição britânica, <em>Uma Pastelaria em Notting Hill</em> cumpre os mínimos e, de vez em quando, faz crescer água na boca.
Publicado a
Atualizado a

Há filmes cuja simplicidade e exatidão com que correspondem ao que deles se espera não permitem uma análise dinâmica. Por mais voltas que se dê, vamos sempre encalhar no saudável comentário "é o que é". Pois bem, Uma Pastelaria em Notting Hill é um desses casos, e está tudo no título português: se há uma pastelaria, cheira a cozinha colorida e de conforto, se está situada em Notting Hill só pode ser uma comédia romântica... Infelizmente ou felizmente (é um pouco desapaixonada a nossa escolha de palavras), não há nada de particular que torne esta primeira longa-metragem de Eliza Schroeder desaconselhável ou recomendável. É apenas o que se alvitra que seja, sem promessas ou deceções: um filmito que ajuda a equilibrar os níveis de açúcar no sangue e que se varre do espírito não muitos dias depois do visionamento. Para não dizer horas.

Protagonizado por uma simpática, e a princípio ligeiramente amarga, Celia Imrie, Uma Pastelaria em Notting Hill até pode baralhar o seu programa de leveza ao começar sob o signo da morte da personagem (sugerida de forma subtil) que iria estar à frente desse estabelecimento do título. Mas a verdade é que a morte de Sarah - constante presença ausente - não tem outro propósito senão dar o ponto de partida para a história, com a sua devida mensagem de esperança e otimismo social. Quer dizer, ao desaparecimento desta chef de primeira apanha respondem três mulheres de gerações distintas: a mãe (Imrie), a filha e a melhor amiga de Sarah. A ideia é, juntas, darem seguimento ao negócio de sonho da falecida, em sua homenagem, e aprender uma lição prática. O que é que torna especial uma nova pastelaria num lugar onde, como diz um vizinho, "há outras quatro a cinco minutos a pé"?

Para além dos dotes do chef que se junta ao trio feminino (hipotético pai da filha de Sarah), a matriarca acaba por ter um momento de epifania e perceber que o seu pequeno café adorável pode diferenciar-se dos restantes cafés adoráveis da zona ao confecionar algo que reflita o panorama local. Ou seja, abrangendo a multiculturalidade de Londres ao procurar oferecer o sabor a "casa" de muitos deslocados da sua terra natal. Uma mini-utopia concretizável no grande ecrã, claro, embora não se acredite muito no empreendimento enquanto projeto realista...

Cumprindo cada ponto de um argumento previsível, com salutar positividade e enfoque no poder de ação das mulheres, Uma Pastelaria em Notting Hill quase parece uma narrativa criada para um artigo da Time Out (que aliás entra em cena), sem intentos de grande profundidade. Não deixa, ainda assim, de merecer um certo respeito pelo modo como evita a total irrelevância conservando a pureza dos seus ingredientes de base - personagens que importam um bocadinho mais do que a montra de bolos - e afirmando um registo caloroso anódino que não é necessariamente dispensável na paisagem do cinema de hoje. Dentro da moda gastronómica, digamos que se mantém aqui uma tradição de comédia dramática benigna, que não aquece nem arrefece, mas também não ofende. E isso não tem nada de mal: é o que é.

dnot@dn.pt

Artigos Relacionados

No stories found.
Diário de Notícias
www.dn.pt