Os jovens que frequentam o Ensino Secundário Profissional (ESP) entram mais facilmente no mercado de trabalho do que os colegas dos cursos científico-humanísticos. Esta é uma das conclusões do estudo Como valorizar o Ensino Secundário Profissional? Dilemas, Desafios e Oportunidades, que vai ser divulgado hoje pelo EDULOG, um think tank da Fundação Belmiro de Azevedo direcionado para a investigação, análise e discussão do Sistema de Ensino Nacional..No documento a que o DN teve acesso, é citado o Observatório de Trajetos dos Estudantes do Ensino Secundário para destacar que, entre 2010 e 2019, 52% dos alunos que terminaram o ESP encontraram emprego na sua área de formação até seis meses após o final de ciclo. Os dados apontam para que 10% tenha conseguido trabalho antes de concluir o curso e 37,7% ficou empregado até 14 meses após terminar o ESP..No trabalho, coordenado por Belém Barbosa, revela-se que Portugal ocupa o 19.º lugar no ranking europeu de países com mais alunos a frequentar o Ensino Secundário Profissional, com cerca de 45% do total de estudantes no país no ensino e formação profissional, estando atrás, por exemplo, da República Checa (73%), Finlândia (71%) ou Croácia e Áustria (70%)..Quanto ao perfil dos alunos que seguem esta via de ensino, a maioria tem origem em famílias com formação escolar mais baixa. De acordo com os dados disponibilizados, apenas 9% dos estudantes são oriundos de famílias com Ensino Superior como o nível de escolaridade dominante. Uma situação que pode encontrar uma explicação no nível de expectativas familiares, frisa ao DN David Justino, membro do Conselho Consultivo do EDULOG.."Alunos com origem social com menor escolarização dos pais tendem a ter percursos de menor sucesso escolar. O baixo capital familiar é uma das razões para o insucesso, mas há um outro fator: expectativas mais limitadas. Essas baixas expectativas tanto podem ser geradas no seio familiar quanto no contexto escolar. Baixas expectativas de escolarização tendem a cumprir os mínimos: cumprir a escolaridade obrigatória e adquirir as qualificações indispensáveis à integração precoce no mercado de trabalho", sublinhou..Uma análise que nos leva à definição de três tipos de estudantes: os com historial de baixo desempenho académico; os alunos com bom aproveitamento e motivados pela aprendizagem de uma profissão e a perspetiva de empregabilidade; e por fim os jovens que não querem entrar no mercado de trabalho, mas sim prosseguir para o Ensino Superior..Durante o período analisado pelos responsáveis pelo estudo - 2018 a 2021 -, o Ensino Secundário Profissional estava direcionado para três áreas: Serviços; Engenharia, Indústrias Transformadoras e Construção; Saúde e Proteção Social. Sendo que os cursos nas áreas de Ciências Informáticas, Hotelaria e da Restauração representavam um terço do total da oferta educativa. É também revelado que 81,5% dos cursos são destinados ao setor terciário (serviços), 16,6% ao secundário (indústria) e 1,9% ao primário (agricultura, por exemplo)..Quanto à localização das ofertas educativas, estas estavam maioritariamente (40%) localizadas nas escolas das áreas metropolitanas de Lisboa e Porto. O que não é surpreendente, como diz David Justino: "A concentração da oferta está associada à concentração da procura e das oportunidades de emprego. É um fenómeno mais geral que ultrapassa o domínio da Educação. Há que identificar os melhores cursos, promover escolas de referência e incentivá-las a atrair mais alunos, mesmo que para além dos limites de cada concelho. Existem hoje, em zonas do interior do país, escolas com excelentes cursos profissionais cuja saída se faz para o resto do país. A empregabilidade dos cursos não tem de ser estritamente local.".E será que a oferta destes cursos está ajustada às necessidades do país? "É possível melhorar o planeamento e otimizar a rede de ofertas, mas a prioridade terá de ser dada à qualidade dos cursos, ao curriculum, aos recursos humanos e ao apetrechamento das escolas. Não basta ter professores disponíveis para abrir um curso profissional. É necessário conhecimento técnico especializado e condições de desenvolvimento da aprendizagem em ambientes de trabalho simulado. Por vezes exageramos as limitações por parte da procura (origem social dos alunos, fraco rendimento escolar, etc.), mas os maiores desafios colocam-se do lado da oferta, da sua qualidade e empregabilidade.", acrescenta..Ideias que estão igualmente expressas em algumas das 18 recomendações que os autores do estudo Como valorizar o Ensino Secundário Profissional? Dilemas, Desafios e Oportunidades deixam no mesmo: é necessário fazer uma revisão dos curricula, articular a oferta formativa, fortalecer as parcerias [com as empresas], programas de apoio à empregabilidade, articulação com políticas de desenvolvimento regional, ter sistemas de monitorização e avaliação..cferro@dn.pt