Alguém que fizesse a diferença

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Na semana passada, em Los Angeles, vi como dois cowboys de chapéu sombreiro e bota dura posavam para o fotógrafo ambulante a meio do calçadão de Venice Beach. Seguiram-se-lhe outros e outros, todos em viagem a caminho do Leste. Consta que vários grupos deles, a esta hora, há dias terão deixado os ranchos do Texas para se aproximarem da Casa Branca, a fim de cumprimentarem o seu conterrâneo George W, Bush, se hoje for reeleito Presidente dos Estados Unidos da América, à semelhança do que aconteceu em 2000. Entretanto, parece que ninguém poderá dizer que tal não aconteça. Dezoito dias de costa a costa, de cidade em cidade, observando o pleno da campanha eleitoral, e uma pessoa ganha um master em perplexidade perante a divisão simétrica que une em dois blocos um país que é feito de tantas e explosivas diversidades.

Mas serão dois blocos distintos? São-no pela base, não me parece que o sejam verdadeiramente pela altura. A ideia que tenho, depois de haver falado com eleitores que se entusiasmam até às lágrimas quando se referem a Kerry, latinos que dizem ter velas acesas ininterruptamente para que o marido de Tereza Heinz seja eleito, que estão dispostos a darem o dinheiro do seu bolso e o tempo das suas vidas para que os democratas ganhem, não falam a mesma linguagem que o próprio fala, e creio que vêem no senador de Massachusetts aquilo que ele não mostra ou então, na melhor das hipóteses, não pode mostrar. Os argumentos ligados à guerra, que à primeira vista pareceriam favorecer Kerry, enredam o democrata e contam a favor de Bush.

O aparecimento daquele émulo do outro lado do mundo, chamado Ben Laden, dá uma ajuda perfeita no momento exacto. Na sexta-feira passada, quando o vídeo acontece, George W. Bush está acompanhado do herói dos ecrãs, o governador Schwarzenegger, e as sua palavras de luta contra o terror são as mesmas dos dias precedentes, não precisa de mudar uma vírgula, só carregar nas sílabas. Kerry, pelo contrário, está acompanhado de Springsteen, e, quer se queira quer não, a voz da guitarra eléctrica soa a uma balada mole, quando a alma defensiva já só pede bombas e tiros. Os apoiantes de Kerry, apelando ao bom senso e à mudança, bem se esforçaram por dizer, durante a campanha, que os seus adversários exageram, que falam do terror como se à volta de cada casa americana houvesse uma alcateia de lobos. O terrorista da Al-Jazeera veio lembrar que a alcateia existe. Kerry, que procura afirmar a mesma determinação de Bush, acrescentando, contudo, um however político que explicite a diferença, só complica as coisas junto dos aterrorizados. Neste momento, toda a adversativa já é demais, as frases que vão além do sujeito e do predicado tornam-se demasiado complexas para serem compreendidas. É preciso ficar por aí. A palavra slogan, que na sua origem significa grito de guerra, tem plena aplicação em semelhante contexto. Não me admira que a única pessoa que encontrei que se declarou votante por Bush tenha dito que o fazia por ser o actual Presidente um extraordinário speaker.

Pode-se perguntar como é possível que um país que nos dias de hoje produz o discurso crítico mais intenso, o ensaísmo mais rigoroso, a ciência e a tecnologia mais avançadas, a instrução pública mais eficaz, se limite a este tipo de combate político. Alguns dos apoiantes de Kerry dizem, precisamente, que este empate acontece porque o democrata não foi claro, não foi ao fundo, não disse abertamente que a Guerra do Iraque estava perdida e era preciso rever tudo desde o início. Kerry não disse provavelmente aquilo que pensa, que o nacionalismo dos Estados Unidos, tal como é vivido pela maioria dos seus cidadãos, está desenquadrado do mundo globalizado de que eles mesmos são os principais autores e sujeitos. Para muitos dos eleitores democratas, Kerry não proferiu o discurso que se esperava.

Os Estados Unidos e o mundo precisariam neste momento de alguém que tivesse feito verdadeiramente a diferença. Assim, tão palidamente separados, ambos dão razão aos que dizem que se trata duma guerra entre o petróleo e a maionese, sendo aquele apenas o inflamável e não esta.

Claro que do lado de cá, a Europa ainda espera um milagre. Voa-se entre Nova Iorque e Munique, e aqui os candidatos já parecem outros. O desejo de que alguma coisa aconteça que possa inclinar a marcha das coisas para um outro rumo leva a que o desejo se confunda com a realidade e a vantagem se atribua a John Kerry. Era bom que assim fosse. Se acaso Kerry se transformou na única metáfora possível para uma mudança, esbatida que seja, já seria um bem. Mas se não acontecer, e nada mudar neste enredo sem saída à vista, ao menos fica a ideia daquele estudante da Brown que dizia que seria necessário lembrar à Europa que os Estados Unidos não são jamais apenas o grupo que ganha, são também e sempre o outro que se lhe opõe. E ele pediu que, acontecesse o que acontecesse, se bebesse champanhe a favor desse espírito.

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