Além da Taprobana

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Passou o ano, a pandemia tornou-se uma pessoa de família, explicaram-nos uma vez mais que temos de empobrecer e entretanto a guerra que aquele que se toma por Pedro o Grande decidiu desencadear para reconquistar o seu Império continua a dilacerar os nossos horizontes e a reduzir e a limitar as nossas pontes para o mundo.
Durante todo este ano, em nada melhorou a situação e provavelmente passaremos a viver na Europa em clima de guerra permanente, como foi próprio da maior parte dos séculos da nossa História.

Resta-nos ir além da Taprobana!

Uma Europa fechada sobre si própria, enrolada numa defensiva ressentida, incapaz de formular a sua própria estratégia no mundo, porque dependente da força militar norte americana, constitui uma perspetiva pobre para quem se habituou a viver entre as prodigiosas diferenças dos cinco continentes.

A nossa Europa é a Europa que se abriu ao mundo, por "glória de mandar e vã cobiça", sim, não o escondemos, mas que nesse mesmo impulso e com toda a violência do seu instinto de dominação veio acelerar o diálogo entre culturas, o encontro das civilizações, o universalismo cosmopolita.

Ir além da Taprobana é recusarmos de vez o euro centrismo, essa negação das outras civilizações da Humanidade que não a ocidental, das outras religiões do mundo que não as judaico-cristãs, esse atestado de barbárie que a auto-suficiência ignorante passa a tudo o que não seja de cepa europeia.

Mais do que Camões, é Fernão Mendes Pinto que, entre nós, representa esse olhar que soube ver "além da Taprobana" e dar-se a si próprio um horizonte acima da "Fé e do Império" em que nascera.

Eu conheci em Goa os descendentes daquelas famílias brâmanes que no século XVII, fosse qual fosse a sua motivação, se converteram ao catolicismo e assim vieram a integrar a classe dominante.

Uma senhora dessas famílias, que fora militante ativa contra a dominação portuguesa de Goa, explicava tranquilamente "Não sei por que razão os meus antepassados se converteram, sei apenas que hoje eu sou tão católica como indiana".

Outra senhora que conheci assumia a sua antiga fidelidade a Portugal e a Salazar, embora o nosso ditador a tivesse profundamente desiludido. Em conversa com esta goesa, Salazar manifestou surpresa pela qualidade do português que dela ouvia e perguntou se tinham sido os seus pais ou os seus avós quem tinha vindo de Portugal.

A senhora respondeu, ante a incompreensão do seu interlocutor, que a sua família era portuguesa, sim, mas não tinha vindo de Portugal, era portuguesa por opção desde o século XVII. Salazar não entendeu. Para ele, a civilização chegara à Índia com os europeus e só descendentes de portugueses poderiam ser portugueses. Os outros seriam apenas indígenas.

O encerramento do chamado Ocidente em si próprio, numa refrega que se joga afinal entre europeus, constitui um risco maior de isolamento, face à distância desta guerra que vêm assumindo os outros continentes, conscientes de que se enfrentam nela diferentes potências ex-coloniais, a Rússia não menos que a Europa. Este risco, consequência perigosa do conflito, veio reduzir as perspetivas cosmopolitas abertas com o processo de mundialização.

Assim como o Japão durante a Segunda Guerra Mundial quis chamar a si as nações asiáticas vestindo de anti-colonialismo o seu próprio imperialismo, do mesmo modo a China joga hoje no mundo a carta da hegemonia pacífica pela via económica, procurando aproveitar para os seus interesses essa distância que se abriu entre o chamado Ocidente e os outros continentes e civilizações.

Continuamos infelizmente a assistir hoje a muitas manifestações dessa ignorância e dessa cegueira, que identificam a Europa o Ocidente com a própria Civilização. O mundo fechado de Salazar ainda é o de muita gente. Gente que nunca soube ir "além da Taprobana" ...

Diplomata e escritor

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