A cidadania é um compromisso permanente e o serviço público é muito mais do que a ação do Estado, exigindo a participação no espaço público como afirmação da sociedade civil. E todos ansiamos por ter instituições mais ativas e intervenientes. Essa a marca de democracia, como sistema de valores e como demonstração da participação cidadã ativa e responsável, assente na liberdade igual e na igualdade livre. E se falo de cidadania, refiro a mobilização necessária de quem tem longa experiência no exercício do melhor serviço público..Há dias, quando apresentei com Alberto Regueira, no Centro Nacional de Cultura, o volume correspondente ao terceiro ciclo das Conferências do Chiado, da Associação Cidsenior, estava muito longe de pensar que esse seria o nosso último encontro e que hoje estaria a invocar sentidamente a memória de um amigo, que sempre me habituei a ver cheio de vitalidade e entusiasmo, empenhado na concretização de mil ideias e iniciativas. A ideia que o animou nos últimos anos era extraordinária. Tratava-se de mobilizar um conjunto de profissionais, já em idade de reforma ou próximos dela, todos com grande e profícua experiência nas suas áreas profissionais, de modo a que continuassem a ser úteis e a participar ativamente, com pensamento e ação, na construção de uma sociedade melhor. E os resultados foram extremamente positivos, uma vez que, ao longo, dos últimos anos, foi possível apontar caminhos de desenvolvimento. Longe de qualquer melancolia, foi possível (e estou certo de que a sementeira continuará), recorrer ao método de preparar o futuro com rigor, vontade e persistência. E tantas vezes lembrámos o exemplo planeador de Jean Monnet ou de Robert Schuman, pais da nova Europa..Alberto Regueira teve uma carreira brilhante na Administração Pública, no setor financeiro, no voluntariado e na sociedade civil. E a melhor homenagem, que é de justiça fazer, tem a ver com duas instituições marcantes na história contemporânea a que esteve ligado - a SEDES, Associação para o Desenvolvimento Económico e Social, de que foi fundador e ativo dirigente e a DECO, Associação para a Defesa do Consumidor. E a militância pioneira na defesa do consumidor continua a ser fundamental, uma vez que a cidadania ativa obriga a lutar quotidianamente pela salvaguarda dos direitos fundamentais e pela qualidade de vida. De facto, nenhuma causa de serviço público, de solidariedade e de intervenção social lhe foi estranha. Mas é ainda de elementar justiça referir a militância cultural e a avidez da leitura, das artes e da cultura. Era um melómano sistemático, que conhecia em pormenor as principais óperas e os melhores espetáculos, cantores e orquestras..Há muitos, muitos anos era um habitué do S. Carlos, que frequentava com uma grande atenção e persistência. Discutia apaixonadamente as representações, as encenações e as vozes. Lembro-me de o ouvir, quase em êxtase, comentar uma representação de "O Trovador" e falar com conhecimento de causa sobre a obra multifacetada de Verdi, que estava entre as suas preferências, lembrando Alida Valli na genial representação de "Senso", que os melómanos amam especialmente. Uma conversa com ele tornava-se apaixonante, uma vez que deambulava entre a ópera e a economia, além da organização das iniciativas que punha de pé, com grande afã. E sobre a Cidadania Sénior, lembrava tantas vezes o exemplo da sociedade japonesa, na qual depois da idade de reforma, os melhores continuam a ser aproveitados como indispensáveis, em nome do conselho e da experiência, para garantir a transmissão de conhecimentos e de saberes entre as várias gerações. Como diria T. S. Eliot, precisamos sempre garantir que a sabedoria se não perca no conhecimento e na informação... E há pessoas insubstituíveis.. Administrador executivo da Fundação Calouste Gulbenkian