ainda se ouviam lá fora os risos de uma tarde saborosa

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Domingo, 12 de Junho

Na quarta-feira, quando cheguei, fomos almoçar a casa dos velhos pais. Já é uma tradição, e a minha mãe, que talvez não seja melhor cozinheira do que as outras mas é a minha, gosta de fazer um almoço petisqueiro, a meio entre o festejo do reencontro e a celebração da memória.

Olhei para a terrina, guloso, e vi pedaços grandes de galinha nadando num guisado bonito. Ela percebeu a minha volúpia, disse:

- Lembras-te daquele galo que cantava a noite toda?

E fez um trejeito traquinas na direcção da terrina.

Eu pisquei-lhe o olho de volta, mas senti um calafrio.

Mesmo assim, comi. E soube-me bem. E repeti, molhando no guisado os restos do meu pão, numa voragem que talvez pudesse provir das poucas horas de sono e da desidratação dos aviões, mas na verdade vinha do facto de a minha mãe cozinhar como nenhuma outra e de estarmos todos juntos de volta e de em breve andarem aí o Verão e o calor.

Durante a tarde, a memória daquele galo voltou. Assaltou-me várias vezes.

Os meus pais moram perto, não mais de cem metros aqui abaixo, e o bicho despertava-me com frequência. Nunca o vi, creio: havia lá na capoeira vários machos, e, de qualquer modo, há bastante tempo que a passarada tinha sido remetida aos fundos do quintal, fora do alcance das minhas visitas de médico.

Mas à noite, quando estava a trabalhar a desoras, ou quando me sentava a ver um pouco de televisão, ou ao deitar-me na cama a ler, era interrompido inúmeras vezes por ele - à meia-noite, às duas da manhã, a outra hora qualquer.

- Sacana do bicho -, suspirava eu.

E, no entanto, era como se houvesse uma ligação entre nós. Àquele galo cabia avisar-me de que estava na hora de fechar a jornada. Ele me dizia que já chegava de televisão, e não raras vezes era ele também quem me lembrava de que, por muito que estivesse a gostar do livro, fosse qual fosse esse diacho desse livro a que tinha entregado a madrugada, no dia seguinte teria de acordar cedo outra vez.

Custou-me a ideia de que tivesse morrido, aquele animal, e não me custou menos a de que os seus restos mortais se revolvessem dentro de mim, ao sabor do meu hedonismo e da minha falta de empatia. Mas decidi atribuí-lo à circunstância de ter estado algumas semanas fora e, de alguma maneira, recuperado os modos lisboetas e as suas condescendências.

No campo, os bichos são para ladrar aos bandidos ou para comer. Há uma dignidade nisso.

Hoje, na venda do Américo, fez-se, enfim, o almoço dos homens. Tinha estado aprazado para um dia em que eu estaria ausente e, sabendo-o, eles haviam mudado a data. Não se faria sem mim, insistiam, e, ao mesmo tempo que eu ia declinando tal responsabilidade, ia também agradecendo interiormente a ternura.

Só faltou o Diogo, mas ainda mal fez 18 anos, tem carro há pouco tempo e, além do mais, é do Benfica. Vieram o Paulo Sousa, com quem simpatizei logo no primeiro dia, e o Duarte Neves. O sr. Rogério fez umas batatas picantes de chorar por mais. O Fernando ocupou--se das cervejas e dos silêncios, como só ele sabe. O Américo serviu um cabrito no forno que tem vindo a apurar há anos e o Paulinho cozinhou duas alcatras com galos que o Carlos Rufino tinha matado há umas semanas, e que guardara no congelador à espera do dia.

Foi uma tarde venturosa. Provocámo-nos um bocado, conhecemo-nos melhor, rimos imenso. O sr. Rogério e eu combinámos tratar-nos por tu, coisa que nenhum de nós conseguirá levar a cabo. O Paulo Sousa fez a festa, o Paulinho contou das suas idiossincrasias, o Carlos explicou as anedotas e o Fernando - como o Duarte - manteve as palavras tão poucas e certeiras como sempre.

A dada altura, o Américo telefonou às escondidas e chamou as mulheres. Abriram-se portas e janelas. O sr. Dimas veio beber meia bola. Chegaram a parar umas senhoras para eu lhes assinar livros, o que fiz com alguma vergonha porque estava bastante ébrio.

Mas a festa continuou, e, mesmo depois de voltarmos a casa, eu e a Catarina, ainda se ouviam lá fora os risos de uma tarde saborosa, com os primeiros raios de sol serpenteando, finalmente, sobre a freguesia.

- E a comida, que tal? - quis saber a Catarina, que é tão bom garfo como eu e, ainda por cima, faz dietas.

- O Américo cozinhou um cabrito dos diabos! - resumi.

Quanto às alcatras de galo do Paulinho, tentara de facto debicar nelas. E estavam saborosas, parece-me. Mas o galo inconveniente dos meus pais, aquele que me acompanhava madrugada fora, cada um na sua vigília, continua a cantar na minha cabeça - como poderia eu saborear as alcatras em condições, se persisto ainda em luta com o meu hedonismo e a minha falta de empatia?

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