Há pelo menos oito anos que ando de marmita para cá e para lá. Casa- -trabalho sempre, mas sempre, de transportes públicos. Os meus filhos desde que iniciaram a escolaridade obrigatória frequentam o ensino público. Andava eu a prever a crise? Não, as horas tardias de almoço deixavam-me pouca margem de escolha, já estava farta do bitoque ou da clássica tosta de frango. Comecei a trazer de casa. No autocarro leio, durmo, visito sites, ponho as conversas em dia - nem pensar em estar uma hora no trânsito no para-arranca ou andar que nem uma louca à procura de estacionamento. E a escola pública porque acredito nas obrigações de um Estado republicano..À partida, parece que nada mudou na minha vida com a chegada da crise e das medidas austeritárias que estão a asfixiar os portugueses. Parece. Se em atitudes e comportamentos quotidianos já tomava opções que só agora muita gente se viu obrigada a assumir, outras invadiram a minha esfera privada, como, por exemplo, cortes no salário por via da carga fiscal e nos subsídios, IMI, pagamento dos exames de saúde do meu filho num hospital público, redução das deduções à coleta. Na prática, menos dinheiro na carteira..É óbvio que deixei de fazer com a mesma frequência um dos meus programas preferidos, comer em bons restaurantes - agora só quando o rei faz anos! E que entro na FNAC praticamente com palas nos olhos, que penso duas vezes antes de comprar o que seja... Mas, verdadeiramente, nunca foi aqui que ficou parte substancial do meu rendimento. Como em qualquer casa de família, o sorvedouro de dinheiro chama-se Pingo Doce e Jumbo. Mesmo que só lá fosse apenas, e sublinho apenas, repor um pacote de arroz, o resultado era sempre o mesmo: um carro a abarrotar e, pelo menos, 100 euros que voavam da conta. A minha grande decisão com a crise foi tomada em jeito de comodismo - deixei de ir ao supermercado! Agora, é o supermercado que vai lá a casa..As compras pela Internet, para além da vantagem de não ter de alombar com os sacos para o 2.º andar sem elevador, têm estas coisas boas: não há prateleiras com produtos a rirem-se para mim, não sou aliciada com promoções e quero despachar a encomenda o mais rápido possível porque pura e simplesmente não tenho paciência! Poupo? Bastante. Consigo ter sempre tudo o que preciso? Não! Numa casa em que filhos adolescentes consomem 30 ou 40 iogurtes por semana, são muitas as vezes que falta qualquer coisa no frigorífico e na despensa. Mas nada que a mercearia de bairro, e as marcas brancas, não resolvam...