Afinal um 'gulag' pode ser palco de um triângulo amoroso russo

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"E tu andavas a dizer bem da América? Não. Andava a dizer bem da Américas." Zoya, uma judia russa de 19 anos, era essa Américas. Um nome de código para a sua figura, uma alusão à cintura fina, como o istmo do Panamá. Na União Soviética de finais dos anos 40, em que qualquer elogio aos Estados Unidos era um crime contra a revolução comunista, o azar de Lev foi ter sido ouvido a louvar na rua a elegância de Zoya, a beldade por quem todos se apaixonavam. Incluindo o irmão mais velho de Lev, figura que surge como narrador em A Casa dos Encontros, o mais recente romance do britânico Martin Amis. Publicado no final do ano passado em Londres, surge agora na tradução portuguesa.

Numa longa carta à enteada Venus, que vive no Ocidente, escrita em 2004 durante uma visita ao país de origem, um velho russo à beira da morte relembra os tempos passados em Norlag, um gulag siberiano, acima do círculo árctico. Um campo de prisioneiros povoado por alguns opositores políticos, muitos delinquentes comuns e sobretudo vítimas da repressão cega ditada por Estaline. Homens como Lev e o irmão estavam entre estes últimos, classificados como "inimigos do povo" e condenados a uma década ou mais de prisão por crimes fantasiosos . Um campo de prisioneiros num mundo de neve e gelo, onde, entre o trabalho escravo, o frio intenso e a fome permanente, havia alguns sinais de irónica humanidade, resultado das mudanças que se seguiram à morte de Estaline em 1953. Como a pequena casa que dá nome ao livro e que servia para visitas conjugais (com direito a vodka, cigarros e velas). Uma noite diferente oferecida aos presos cujas mulheres, como Zoya, estivessem dispostas a percorrer milhares de quilómetros para encontrarem os maridos. No caso de Lev e Zoya, para consumarem um casamento com oito anos.

Livro brilhante de Martin Amis, saudado pela crítica internacional como um regresso ao seu melhor como romancista depois do relativo insucesso de Cão Amarelo, resulta directamente do fascínio do escritor britânico pela União Soviética. A ideia terá surgido, aliás, durante uma investigação de Amis sobre Estaline, que resultaria na publicação em 2002 de Koba o Terrível, uma biografia do dirigente soviético cheia de estatísticas e relatos aterradores, destinados a mostrar a sua faceta de assassino de milhões.

Através da história de Zoya e Lev, e também do próprio narrador, o livro aborda a experiência soviética, desde as violações cometidas pelo Exército Vermelho durante a Segunda Guerra Mundial até à melhoria das condições de vida que aconteceu com a subida de Nikita Krutschov ao poder e a relativa normalização que prosseguiu com Leonid Brejnev. Em pinceladas surge também a Guerra no Afeganistão, em que Artem, filho de Lev, é morto. E o massacre na escola de Beslan, na nova Rússia saída das cinzas soviéticas, uma tragédia que martin Amis faz coincidir com a viagem do narrador ao seu país natal.

Dois irmãos apaixonados pela bela Zoya na União Soviética dos anos 40 e 50

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