Administrador judicial afasta "qualquer possibilidade" de encerrar a Sousacamp

Vila Flor, Bragança, 27 jun 2019 (Lusa) -- O administrador judicial do processo de insolvência da Sousacamp, Bruno Costa Pereira, afastou hoje "qualquer possibilidade" de o maior grupo português produtor de cogumelos encerrar portas.
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O responsável pelo acompanhamento do processo, que decorre há 17 meses falava, à Lusa no final de uma sessão da Assembleia de Credores sem decisões sobre o futuro, mas com garantias de que não faltam interessados em recuperar o grupo com sede em Benlhevai, Vila Flor, no distrito de Bragança.

Esta sessão, no tribunal de Vila Flor, destinava-se a votar o plano de recuperação apresentado, a 05 de junho, por um consórcio estrangeiro, mas, por falta das garantias bancárias exigidas, foi alargado o prazo por mais 20 dias e até 17 de julho terá de ser tomada uma decisão.

"O que foi informado foi que se trata de uma operação financeira que está a ser tratada junto de uma entidade espanhola e não houve ainda tempo para que a entidade espanhola pudesse aprovar essa operação de 25 milhões de euros", indicou o administrador.

O que se espera agora, como explicou, "é que durante esse período de 20 dias a garantia venha a ser aportada, para que permita aos credores votar de forma esclarecida e convicta de que o plano tem depois capacidade para ser cumprido".

Os 25 milhões de euros são o valor a ser injetado de imediato no grupo para resolver o passivo, segundo a proposta do consórcio que já constituiu uma sociedade em Portugal, a Rudi & Mittelbrunn, Lda..

Um dos dois empresários que fazem parte deste consórcio, e apresentado como "mundialmente conhecidos", é Rudi François J. Joris, um belga radicado na Polónia "considerado uma referência mundial na formação técnica e profissional no setor dos cogumelos".

O outro investidor é o espanhol Ignacio Felipe Mittelbrunn Fuentes, que se propõe fazer uma parceria com o grupo brasileiro BDN, que atua no mercado nas áreas do agronegócio, imobiliária, financeira e saúde.

O maior credor da dívida de 60 milhões de euros da Sousacamp é o Novo Banco e a proposta de viabilização em análise apresenta três soluções aos credores.

Para um pagamento imediato em 30 dias, os proponentes querem um perdão de 65% das dívidas. Outra solução é o perdão de 35% dos créditos e o pagamento dos restantes 75% em 72 prestações.

Se os credores não aceitarem as hipóteses com perdão de dívida, a solução proposta é o pagamento total em 120 prestações (10 anos) com um período de carência de 18 meses.

O administrador da insolvência explicou que, até ao dia 17 de julho, ou é aprovado este plano ou a empresa-mãe, a Varandas de Sousa, entra num período de liquidação, junto com as seis empresas do grupo.

O administrador vincou que "o período de liquidação não significa fechar empresas".

"O que se trata, no caso de reprovação, é de buscar-se no mercado um 'player' (operador) que possa entrar no capital e prosseguir a atividade. Há variadíssimas manifestações de vontade e de interesse por parte de 'players' nacionais e estrangeiros", assegurou.

O administrador afirmou que "é com serenidade que se encara o futuro", porque se trata de "um grupo que seguramente se verá recuperado, quer seja por via do plano que está apresentado quer seja por via da sua transmissão a um novo grupo que leve os destinos da companhia por diante.

"As empresas devem fechar quando não são capazes de ser rentáveis, ou que não se consiga perspetivar a sua rentabilidade operacional no curto prazo. Não é o caso", vincou.

Esta é, acrescentou, "uma empresa que operacionalmente é rentável, com todas as dificuldades que vive, porque não tem acesso a crédito, continua a laborar e a fornecer os seus clientes de forma diária, há um voto de confiança dos clientes", além de não ter salários em atraso entre os quase 500 trabalhadores.

"Não se perspetiva qualquer possibilidade de encerrar o grupo. Naturalmente que passará em qualquer circunstância por uma reestruturação acima de tudo societária, mas a atividade como ela existe não está em causa paralisá-la, porque a empresa produz algo que é vendável, que tem procura, tem capacidade instalada, não tem concorrência em dimensão para a poder substituir e, portanto, o que há que fazer é seguir o caminho da recuperação", sustentou.

O Sindicato dos Sindicato dos Trabalhadores da Agricultura e das Industrias de Alimentação, Bebidas e Tabaco de Portugal (SINTAB) transmitiu a satisfação dos trabalhadores com a garantia de que os postos de trabalho não estão em causa, nem a continuidade da empresa.

Segundo o dirigente José Eduardo Andrade, os trabalhadores "não veem com maus olhos" que se "avance para a fase seguinte de insolvência, que seria, na prática, a possibilidade para surgirem novos interessados.

"E aí sim, num leque alargado de opções pode ser escolhida uma saída provavelmente bem melhor do que esta para a viabilidade da empresa e manter o mercado de cogumelos na esfera nacional. Acho que é um desígnio que todos devíamos abraçar" afirmou.

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