Quando se formou, em novembro de 2020, a "geringonça" de direita nos Açores tinha no Parlamento regional uma maioria de 29 deputados (num total de 57). Esta quinta-feira, confrontado com a impossibilidade de conseguir numa segunda votação a aprovação do Plano e Orçamento para 2024 chumbado em 23 de novembro, o chefe do Governo do arquipélago, José Manuel Bolieiro, do PSD, concluiu que, ao contrário do que andava há dias a defender, o melhor mesmo será partir já para eleições antecipadas, sugerindo a data de 4 de fevereiro..Foi o que comunicou ao Presidente da República, em Belém. Na sequência do chumbo orçamental açoriano, Marcelo Rebelo de Sousa recebeu delegações de todos os partidos com assento no Parlamento regional e ainda o deputado independente (ex-Chega) Carlos Furtado..A surpresa quanto ao volte-face na posição do Governo regional (de favorável a um segundo Orçamento para favorável a eleições antecipadas imediatas) começou a perceber-se quando a delegação do PPM (partido que integra, com o CDS-PP, a coligação de governo liderada pelo PSD) disse aos jornalistas depois de reunir com o Presidente que defendia a solução de eleições já..E depois foi a vez de José Manuel Bolieiro também o fazer, de viva voz, tanto perante Marcelo como depois perante os jornalistas: "Mais vale antecipar uma decisão do povo e, portanto, sugeri ao Presidente da República eleições antecipadas o mais rapidamente possível." E assim acabou por se juntar ao que já há semanas vinha a ser defendido pela oposição, começando pelo PS. Bolieiro acrescentou também outra novidade: nas próximas legislativas regionais PSD apresentar-se-á coligado com o PPM e com o CDS-PP (nas regionais de 2020 cada um se apresentou isoladamente)..O que levou a esta crise política - totalmente inédita na história democrática açoriana - foi o desmoronamento da "geringonça" de direita formada em novembro de 2020 por Bolieiro..Recorde-se: nas legislativas regionais realizadas em 25 de outubro de 2020, o PS voltou a vencer. Contudo, a direita tornou-se maioritária. Bolieiro, liderando o PSD (21 deputados eleitos), fez dois acordos: um de governação, com o CDS-PP (três deputados eleitos) e com o PPM (dois deputados); outro de incidência parlamentar, com o Chega (dois eleitos) e a IL (um eleito). Tudo somado: 29 deputados - ou seja, maioria no Parlamento regional..A primeira rutura foi no Chega: um deputado passou a independente ( Carlos Furtado) e o outro, José Pacheco, ficou no partido. Este rompeu o acordo com o PSD e no Plano e Orçamento para 2024 absteve-se. Estava disposto a mudar para voto a favor numa eventual segunda votação - mas quando o disse o seu antigo colega de bancada, Carlos Furtado, que votou a favor, insinuou que poderia mudaria para abstenção: uma troca com efeito final neutro na contabilidade da votação...Depois das ruturas envolvendo o Chega, foi o deputado único da IL que também rompeu (e juntou-se à oposição a votar contra)..Pelo meio, sem nunca assinar nenhum acordo com o PSD, esteve o deputado do PAN, que nas votações orçamentais teve todas as posições possíveis; abstenção em 2020, contra em 2021, a favor em 2022, e agora novamente abstenção (e irredutível nessa posição, não admitindo mudar de posição numa eventual segunda votação, com o argumento, esta quinta-feira usado em Belém, de que "o PAN não é um partido de tapa buracos, nunca o será"..Resumindo: a "geringonça" de direita passou de 29 deputados para 27, perdendo a maioria absoluta. Ao mesmo tempo, a oposição cresceu de 27 deputados (25 do PS + 2 do BE) para 28 (o deputado da Iniciativa Liberal). Agora, com unanimidade no Parlamento a favor da ideia de eleições antecipadas o quanto antes, o Presidente da República não terá outro caminho que não seja o de também ir por esse caminho. Para tal já convocou o Conselho de Estado, para reunir no dia 11 de dezembro, condição prévia obrigatória para a decisão de dissolver o Parlamento regional e marcar eleições antecipadas..joao.p.henriques@dn.pt