Acordar no sofá da minha irmã e ter um novo par no Tinder

É de amor que se fala nesta coluna, a mais lida do The New York Times. Histórias verdadeiras, contadas pelos leitores. Exclusivo DN/The New York Times.
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Acordei na manhã a seguir ao Natal no sofá da minha irmã. Não fazia tenções de acordar lá, mas o Colorado foi atingido por uma pequena tempestade de neve quando eu, vindo de casa do meu pai, tentava regressar à minha. Se nunca conduziram uma carrinha com tração traseira e pneus carecas num nevão, confiem em mim quando vos digo que é uma péssima ideia.

Depois de ter perdido o controlo do carro e ter falhado a divisória de cimento por alguns centímetros apenas, decidi sair da estrada e deixar a carrinha deslizar até um banco de neve. Felizmente estava a poucos quilómetros do apartamento da minha irmã e, assim, o namorado dela veio em meu socorro, o que explica ter acordado no sofá deles.

Mas não é aí que eu quero chegar. O que teve de especial o acordar naquela manhã foi o facto de ter um novo par no Tinder. Já não usava a aplicação de encontros há algumas semanas mas, a determinada altura, entre o abrir os presentes e a ceia de Natal, tinha pegado no meu telefone e passado algumas centenas de mulheres para matar o tempo. Antes de conseguir analisar o novo par a minha irmã ofereceu-se para me levar até ao meu carro.

Tinha instalado o Tinder com a vaga ideia de que aquilo iria proporcionar-me conhecimentos fáceis, mas percebi rapidamente que se me tinha sido difícil conhecer mulheres num bar continuaria a sê-lo estabelecer relações através do ecrã do meu telefone. Usava-o principalmente para me distrair. Lia os perfis das mulheres da minha zona. Algumas eram verdadeiramente sinceras; outras gozavam com aquilo tudo. Gostava delas todas.

Quando cheguei a casa atirei-me para cima do sofá e mandei mensagens à minha irmã e aos meus pais para eles saberem que ainda estava vivo. Foi quando percebi que ainda não tinha analisado o meu match do Tinder e naveguei rapidamente pelo seu perfil.

A descrição dela era bastante genérica e o único interesse que tínhamos em comum era um blogue de música que eu já não lia há anos. Ela parecia simpática, mas eu não estava com disposição para conversar. Foi então que reparei na última fotografia do seu perfil. Ela vestia uma camisola bege com remendos de feltro castanho e tinha uma fita bege com dois pequenos altos na cabeça. Não resisti a perguntar.

"Estás vestida de girafa na última fotografia?", teclei.

Alguns minutos depois o meu telefone deu sinal: "Estou! Estou feliz por alguém ter percebido."

"Esta é, decididamente, a melhor fotografia que já vi aqui. Terias tantos matches se esta fosse a tua foto de perfil."

"Ah! ah! ah!, obrigada. Talvez tenha de fazer isso. És a primeira pessoa que a apreciou."

Em breve descobrimos que frequentávamos a mesma escola e que ela estaria de regresso dentro de um dia ou dois. Falámos sobre os nossos passatempos e a nossa música favorita. Ambos adorávamos o mesmo rapper indie e lamentávamos nunca o termos visto ao vivo. A certa altura percebemos que já passava bastante da meia-noite e que um dia inteiro tinha passado enquanto conversávamos. Despedimo-nos.

Fiquei ainda mais surpreendido quando acordei na manhã seguinte com uma mensagem dela. Sempre que tinha feito match com alguém que, a) queria conversar e b) não era uma acompanhante profissional, passávamos sempre pelas mesmas etapas: ríamo-nos por estarmos no Tinder, fazíamos perguntas sobre os nosso interesses mútuos e depois gozávamos da companhia virtual um do outro até que um de nós deixasse de responder.

O que é a melhor coisa do Tinder. Numa geração em que o conteúdo de uma mensagem de texto é frequentemente menos importante do que o tempo que esperámos até a enviar, o Tinder permite a intimidade sem qualquer compromisso. Se as coisas se tornarem muito sérias ou aborrecidas ou se fizermos algo de errado, há sempre alguém novo para quem avançar. Normalmente, se não se fizer planos concretos no primeiro dia, a conversa está acabada no segundo dia.

"Vou voltar hoje para a escola", disse ela.

"Oh, isso é excitante", respondi.

"Então e o que fazes logo à noite?"

Expliquei-lhe a situação da minha carrinha (que estava agora presa noutro banco de neve à porta do meu prédio) e como estava enclausurado pela neve num futuro próximo.

Ela não tinha carro. Era a mãe que a vinha trazer.

"Que chatice", disse eu. Ela não respondeu. Mais uma perdida no abismo das conversas falhadas no Tinder.

Perto das seis da tarde recebi outra mensagem dela: "Estou tão aborrecida. O que é que estás a fazer?"

Estava a beber cerveja e a gritar para o ecrã enquanto via Gilmore Girls, o meu passatempo favorito, mas olhei em redor da minha sala de estar e reparei num livro em cima da mesa e na lareira vazia. A minha colega de quarto e eu tínhamos passado o verão todo a dizer que precisávamos de arranjar lenha, mas não o fizemos e, agora, ela estava do outro lado do país enquanto eu estava sozinho, com frio e sem qualquer combustível.

"Estou a ler em frente à lareira", escrevi.

"Gostava de estar aí contigo", respondeu ela. Antes de eu conseguir responder o meu telefone deu sinal novamente. "Desculpa... foi um bocadinho estranho?"

"Também gostava que estivesses aqui comigo", disse-lhe eu seguido de um smile. "Aposto que seria muito agradável estarmos aconchegados em frente à lareira."

"Oh, acredita que seria mesmo."

Ri-me. Não há nada de que eu goste mais do que uma mulher confiante nas suas capacidades de aconchego.

Passámos o resto da noite a falar sobre o que faríamos se não houvesse 15 centímetros de neve e um conjunto de pneus carecas a separar-nos. Não houve nunca nada de sexual. Envolveu principalmente estarmos aninhados a ouvir hip-hop.

"E de que é que falaríamos se estivéssemos aninhados?", perguntei-lhe a determinada altura.

"Alguma vez conheceste alguém no Tinder?", perguntou ela. "Quer dizer, conhecer mesmo na vida real?"

"Houve algumas pessoas com quem fiz planos, mas nunca se concretizaram", disse eu.

"Isso faz sentido. Fico sempre assustada quando faço planos para conhecer alguém aqui e cancelo sempre à última hora. Isso faz de mim uma pessoa horrível?"

"Acho que significa que tens um forte instinto de sobrevivência."

"Então porque é que tu estás no Tinder?" perguntou ela.

Contei-lhe a história da última mulher que eu tinha odiado e da última por quem me tinha apaixonado e de todas as outras no entretanto sobre quem eu tinha tentado convencer-me de que sentia alguma coisa, mas não tinha conseguido. "E tu?", perguntei.

"Acho que estou aborrecida."

Rimo-nos ambos - "ah-ah" - enquanto eu a puxava mais para mim no nosso abraço eletrónico. Adormeci a ouvir o lume imaginário a crepitar e a silvar.

Acordei com uma mensagem dela a descrever o pequeno-almoço que tinha cozinhado para si própria: rabanada, bacon, ovos. "O suficiente para nós dois", garantiu-me.

"Sabe lindamente", repliquei enquanto comia uma mão-cheia de batatas fritas de pacote. Tinha ficado sem mantimentos antes do nevão e agora estava reduzido a batatas fritas, pipocas e latas de sopa.

"Então quais são os teus planos para a passagem de ano?" perguntou ela.

"Tenho bilhetes para um concerto em Denver, mas depende do tempo."

"É suposto estar mais quente amanhã", disse ela. "Eles dizem que vai derreter muita da neve."

"É, espero que sim."

"Eu também", disse ela.

Na véspera do ano novo consegui arrastar o meu carro até à loja de pneus mais próxima. Depois de os meus pais terem sabido da minha quase colisão na noite de Natal, ofereceram-se para me comprar um novo conjunto de pneus. ("Pensa nisso como um presente de Natal atrasado", disseram-me.) Mas nos últimos dois dias grande parte da neve já tinha derretido, o que significou que toda a gente decidiu que era a altura perfeita para comprar pneus novos. Imagino que não os podia realmente criticar pois eu estava a fazer a mesma coisa.

Assim passei as quatro horas seguintes na loja de pneus a trocar mensagens com a minha amiga do Tinder.

"Decididamente não vou conseguir ir ao concerto", disse eu.

"Que pena", disse ela. "Lamento muito."

"Não importa. Significa que não tenho de passar a noite inteira a guiar." Os bilhetes eram para uma das minhas bandas favoritas. Morria só de pensar que ia perder o espetáculo.

Com os pneus novos nem conseguia acreditar como a minha carrinha se portava bem. Quando virava o volante ela virava realmente na direção para onde eu pretendia ir. Estava espantado.

Mal cheguei a casa contei à minha amiga do Tinder as boas notícias. Ela ficou feliz por mim. Conversámos durante mais uma hora, mas não fizemos planos para nos encontrarmos.

No final tínhamos trocado centenas de mensagens durante dezenas de horas ao longo de quase cinco dias seguidos. Mas agora que as estradas estavam desimpedidas e eu tinha mobilidade, permitindo-nos encontrar-nos na vida real, podíamos ser responsabilizados pelas nossas palavras e carinho.

E isso demonstrou ser um fardo que nenhum de nós podia suportar.

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