A discussão sobre a farinata vai cá chegar. Chamam-lhe ração humana, como a do gado, embora sejam alimentos perto do fim da validade, faz-se deles um granulado sem gosto e, pronto, serve-se aos pobres. Uma espécie de “se não têm pão, porque não comem croissants?”, mas baixando as expectativas. A frase de Maria Antonieta (que é só lenda) foi aproveitada pelo presidente da Câmara de São Paulo, João Doria. Ele também tem uma solução milagrosa para o problema da fome: abre a boca e engole, saborear não é para ti. No mês passado, o prefeito Doria propôs a farinata para os pobres em geral e para as escolas públicas. É de família esse misto de preocupação e solução modesta: Bia, a mulher do político milionário, disse numa entrevista que “pobre brasileiro precisa é de um abraço”. A generosidade mitigada deve ser contagiosa porque o cardeal Odilo Scherer, arcebispo de São Paulo, embarcou na proposta: “Pobre tem fome. Hábito alimentar é para quem pode dar-se ao luxo de ter uma alimentação regular.” Há verdade nessas palavras, há. Mas deve ter mais alguma coisa que se diga, porque na semana passada Doria retirou a proposta. Digamos assim: há coisas que não podem ser logo no primeiro prato, precisam de vir no menu como discussão, deixar marinar e só depois ser servidas. A ração humana vai voltar, requentada. Se tem hidratos de carbono, para quem é, é petisco. E a ideia vai cá chegar: discutia-se isto no Brasil e uma menina de Braga filmou a lagarta na sopa. Lagarta tem proteínas, alguém vai lembrar.