O julgamento da Maia recolocou a questão da interrupção voluntária da gravidez. A sua série sobre o aborto surgiu na sequência do referendo de 1998. A questão fundamental subjacente aos quadros foi silenciada?Arte é arte, mas nem sempre se vê o que se passa nela. Um quadro n3o é apenas cores e forma, mas história. Essa série surgiu da minha indignação. Fiquei triste com o que se passou em torno da questão do aborto. Houve vergonha. As pessoas não foram votar por desleixo. A Assembleia tinha tido a palavra final, nem sequer havia que realizar o referendo. Há anos que, em Portugal, é evidente o sofrimento das mulheres: as ricas vão abortar ao estrangeiro, as pobres não podem. É inacreditável considerar criminosas mulheres que praticam um aborto. Isto faz-me lembrar coisas do passado...Defende a despenalização do aborto com que fundamentos?.As mulheres têm direito ao seu corpo. O aborto não é bom. Ninguém o quer, mas acontecerá sempre. Mesmo proibido, faz-se em segredo. As meninas fazem desmanchos às escondidas com medo de dizer aos pais..As suas figuras são sobretudo raparigas. Portugal tem a segunda taxa de maternidade adolescente da Europa....Não é o que acontece em muitos outros países? Mas nem todas são meninas, também há mulheres que nos olham com urna expressão de desafio. Porque, no fundo, tomam conta do seu próprio destino. Uma delas parece que levou uma bofetada, mas a sua expressão dir-se-ia um pouco insolente. .A mulher tem estado no centro do seu trabalho, mas não gosta de a ver como vitima. Aqui é difícil não a observar desse modo..As mulheres que abortam sofrem, mas o espírito pode sobreviver à dor. Não suporto a ideia de culpabilização em relação ao acto. Já basta o que cada uma sofre por ter de o praticar. Mas tudo isso advém dos tempos totalitários que Portugal viveu, de mulheres mascaradas com aventais a fazerem bolos como boas donas de casa..Essa concepção da mulher ainda impera hoje, no Portugal democrático, de forma mais subtil?.Então não? Há, subtilmente, opressão. Não vivo em Portugal, mas estou em contacto com o país: desloco-me aí. As mulheres estão sobrecarregadíssimas: têm o seu emprego, a responsabilidade da gravidez e, depois, ainda são donas de casa. A questão do aborto insere-se em todo esse contexto violento. E como se não bastasse sentem vergonha. Neste caso da Maia, a televisão mostrou uma rapariga de cabelo louro a tapar a cara. E só uma confessou - corajosa! - ter praticado um aborto..Pintou o horror, a solidão de uma forma crua, mas sem obscenidade. E fê-lo não apontando apenas o dedo a casos individuais. Há uma crítica a um Portugal político, social e religioso por detrás dos seus quadros?.A meu ver, o Estado deve estar separado da Igreja, e dos que se arvoram em donos da moral pública. Não estou a criticar globalmente a Igreja Católica, mas a hierarquia. Até acredito nos milagres e nos santos. Mas este Papa é tão reaccionário... Parece que um padre esteve entre as mulheres dando-lhes apoio. Bem haja! Deus não tem a ver com os homens, está envolvido com a consciência de cada um. Cada um sabe de si e Deus sabe de todos. .Não entende os argumentos dos movimentos em favor da vida?.Estamos a falar de um feto, não de uma criança. Acabam por ser formas de controlo. Detesto todas as formas de imposição de autoridade moral e de perseguição..Qual a reacção dos homens aos seus quadros sobre o aborto?.Não olham, ou, os que olham, fazem-no com dificuldade. É penoso olhar. Não encontrei nenhum que me acusasse. Enquanto arte, foram bem recebidos, mas não se falou do seu conteúdo. A arte tapa muita coisa. Mas tem de ter qualidade, senão não olham. Se as cores forem bonitas, atraem, mas,, depois, vê-se, e ai!....Consegue colocar-se no lugar da mulher que aborta?.Todas as mulheres conseguem. Todas as mulheres sabem o que é ter período menstrual, dores, filhos, conhecem a experiência de serem examinadas. Estão-nos sempre a mexer. Há violência..Maria Manuel Lisboa, no seu livro com o título provisório «Um Mapa da Memória: Nação, Religião e Sexualidade na Obra de Paula Rego», desenvolve a ideia do aborto como antítese de uma anunciação....É antes da anunciação. Não quer dizer que não haja anunciação depois. No caso do aborto, não há anjo, e surge o vazio. A não ser o anjo da misericórdia. Há anos fiz um desenho que mostra uma parteira a fazer um aborto; uma mulher muito pesadona, muito parteira, com asas... Chama-se O Anjo da Misericórdia. Ha nestas telas uma ambiguidade - que Maria Manuel Lisboa disseca exemplarmente - entre a dor e o prazer.Essa dor está ligada ao acto sexual. Aqui há uns anos, houve um caso no Tribunal Criminal de Lisboa de unia menina que foi violada. E autorizaram o desmancho. Uma pessoa importante da Igreja disse então que a rapariga deveria servir de mártir. Parece um filme do Buñuel - o martírio ligado à sexualidade e à dor. O sexo deve estar associado ao prazer, mas a dor às vezes anda por perto. São coisas proibidas que estão nos quadros. Há uma ambiguidade no rosto das mulheres, o despique, o desprezo....Pode haver violação na sexualidade aparentemente normal?.Sim, pode haver os mandões e as que são mandadas..Entende a arte como forma de intervenção? .Nem sempre, às vezes. E evidente que o foi, quando necessário. Hoje, os quadros podem ser políticos de outra forma, e saem à sua maneira. Às vezes, nem concordo com eles. No caso do aborto, fizemo-los, a Lila e eu, com uma gana fantástica.