Partidário da permanência do Reino Unido na UE e da permanência da Escócia no Reino Unido, Douglas Alexander, membro do Labour, escocês de origem, defende um segundo referendo sobre o Brexit..Em entrevista ao DN, na Fundação Calouste Gulbenkian, em Lisboa, à margem da conferência anual do European Council on Foreign Relations, o ex-ministro do Desenvolvimento Internacional de Gordon Brown e ex-secretário de Estado para a Europa de Tony Blair reconhece que o atual líder do Labour, Jeremy Corbyn, não foi claro na defesa do Remain no referendo de 2016 e tem sido penalizado pela sua ambiguidade sobre o assunto..Em relação ao futuro primeiro-ministro do Reino Unido e sucessor de Theresa May, Douglas Alexander diz que, mais importante do que estar por exemplo a analisar a personalidade de Boris Johnson, é lembrar que ele rapidamente entrará em rota de colisão com a posição bem definida da UE 27. E que aí, além de um segundo referendo, outro cenário são eleições antecipadas, situações que poderiam servir de argumento para a concessão de uma nova extensão do artigo 50.º aos britânicos..Professor convidado do King's College, presidente da UNICEF no Reino Unido, o ex-governante trabalhista considera que o Labour faz mal em suspender quem votou noutros partidos nas europeias. Como Alastair Campbell, ex-chefe de gabinete de Blair, por exemplo, que foi suspenso por votar nos liberais-democratas nas europeias em protesto para com a prestação de Corbyn na gestão do dossiê do Brexit..A sua conferência é sobre a relação futura entre o Reino Unido e a União Europeia. O que lhe pergunto é se acha que o Brexit vai alguma vez acontecer? Isso continua a ser incerto. Três anos após o voto do povo britânico, a 23 de junho de 2016, não é tragicamente diferente a forma como os brexiteers continuam a ser incapazes de traduzir a sua retórica para a prática. E a política britânica parece cada vez mais uma batalha entre a fantasia e os factos, entre a retórica e a realidade. E as verdadeiras dificuldades que o Reino Unido experimentou ao longo destes últimos anos refletem essa tensão continuada..Um dos seus interlocutores nesta conferência, aqui na Gulbenkian, é Jo Johnson, o irmão de Boris Johnson. Pensa que, se Boris Johnson ganhar esta corrida pela liderança dos Tories, um No Deal Brexit será o cenário mais provável? Um No Deal Brexit é certamente um dos cenários. Um segundo cenário serão eleições legislativas antecipadas. Um terceiro cenário será uma nova extensão do processo do artigo 50.º. Boris Johnson deu uma longa entrevista ontem [segunda-feira à noite] sobre a sua participação na disputa da liderança conservadora, sobre o que pensa sobre o Brexit, mas não esclareceu grande coisa. Esteve repleta de ambiguidade e incerteza. Enquanto as centenas de milhares de membros do Partido Conservador estão a ponderar a sua escolha, o resto de todos nós continua na incerteza sobre o rumo que Boris Johnson quer tomar se se tornar primeiro-ministro a 22 de julho..Mas não é de esperar que pelo menos o presidente de França, Emmanuel Macron, concorde com mais uma extensão do artigo 50.º... É claro que uma extensão do artigo 50.º só pode ser garantida após decisão tomada por unanimidade entre os 27 [Estados membros da UE]. Tem razão ao assinalar que o presidente Macron e outros estão a perder a paciência com a incoerência e a incerteza que o governo britânico tem manifestado ao longo dos últimos anos. Ainda acredito que, perante certas circunstâncias, ainda possa ser garantida uma qualquer extensão, como por exemplo eleições antecipadas ou um segundo referendo. Mas estamos a entrar por mares nunca antes navegados. Temo que a retórica da campanha está prestes a embater de frente com a realidade das negociações..Pelo que temos visto ao longo destes dias em relação a Boris Johnson, pensa que ele tem condições para ser primeiro-ministro? A única certeza na vida política de Boris Johnson é o seu apoio a Boris Johnson. Ele é o homem que escreveu dois artigos para o The Telegraph, um a favor de permanecer na União Europeia, outro a favor de sair da União Europeia. Ele é o homem que foi despedido de vários jornais por inventar citações e removido da linha da frente dos conservadores por mentir ao líder do Partido Conservador Michael Howard. Por isso, tenho grandes preocupações em relação à escolha que o Partido Conservador pode fazer nas próximas semanas. Mas vamos esperar para ver como as coisas evoluem até julho..Também falou da hipótese de eleições antecipadas. Então e Jeremy Corbyn, o líder do seu partido, o Labour. Acha que tem condições para ser primeiro-ministro? Eu sou um apoiante e membro do Labour e apoiaria, sem qualquer sombra de dúvida, um governo do Labour face a qualquer governo dos Conservadores. Não é segredo que, em várias ocasiões, Jeremy Corbyn criticou o governo de que fiz parte. Mas, em última análise, vamos ter de ter eleições antecipadas, quer seja agora ou dentro de alguns anos. O meu palpite é que as eleições acontecerão em breve. Isto porque qualquer governo que Boris Johnson formar irá muito rapidamente entrar em confronto com a posição já declarada pela UE 27. Fala-se muito hoje em dia sobre a personalidade de Boris Johnson, mas a verdade é que, quem quer que seja o novo primeiro-ministro, irá herdar, tal como a primeira-ministra cessante Theresa May herdou, um hung parliament, sem maioria absoluta para os conservadores, com uma maioria clara contra um No Deal Brexit, com uma posição há muito declarada de que a UE não quer reabrir o acordo de retirada..Mas Theresa May tinha maioria absoluta, que herdou de David Cameron, só que perdeu-a depois de convocar eleições antecipadas... Sim. Foi. E aí reside um aviso para todos os políticos: podem pensar que as eleições vão ser apenas só sobre um tema, mas podem acabar por ser sobre um outro totalmente diferente. Lembrar também que ela tinha 20 pontos de vantagem sobre a oposição trabalhista quando convocou as eleições e, depois, acabou as eleições com apenas dois pontos à frente da oposição trabalhista. Muitos deputados conservadores estão receosos em se apresentarem perante os eleitores britânicos num futuro próximo..Durante a campanha para as eleições europeias de maio, o ex-primeiro-ministro britânico Tony Blair apelou aos apoiantes do Labour que se não quisessem votar no partido que pelo menos votassem noutro que apoiasse o Remain. Assim se pode explicar, em parte, o resultado conseguido pelos liberais-democratas. Quem é o maior culpado do mau resultado obtido pelo Labour nas eleições para o Parlamento Europeu? Eu sou um dos poucos membros do Labour que votou no Labour nas eleições europeias. Não houve muitos. Mas como disse à BBC, após os resultados das eleições, aparecer às pessoas com a mensagem do Labour era um pouco como querer lutar contra uma faca com uma escova de dentes. Eu acredito na permanência do Reino Unido na UE, acredito no internacionalismo e na interdependência, penso que sou representativo dos membros do Labour no Reino Unido. Apoio fortemente um segundo referendo, tenho feito campanha pelo People's Vote, porque penso que a confusão em que nos encontramos foi precipitada pela decisão de David Cameron em convocar um referendo e penso que devemos voltar a ouvir o povo. Acredito mais que o povo britânico é capaz de resolver esta dificuldade do que acredito no Parlamento britânico nos últimos anos. Espero que o Labour reconheça a força do apoio que tem entre os seus militantes e no país para dizer de forma clara de que acredita que o melhor futuro para o Reino Unido é permanecer na União Europeia..Corbyn não foi claro em defender o Remain durante a campanha para o referendo... Não. Eu desejava que ele e toda a liderança do Labour tivessem feito campanha com mais energia e com um compromisso mais visível em relação à causa da permanência na UE. Acredito que a Europa não é só uma instituição transnacional, é uma expressão profunda de um compromisso com a paz, com a prosperidade, com uma Europa de poder num mundo em que, se isso não acontecer, as regras serão ditadas pela China e pelos EUA sem a Europa sequer se sentar à mesa. Acredito que a permanência do Reino Unido na UE é do interesse nacional britânico. As fantasias imperialistas dos brexiteers dizem mais sobre o passado britânico do que o seu futuro..Nas europeias trabalhistas que votaram nos liberais-democratas foram suspensos. Concorda? Alastair Campbell [ex-chefe de gabinete de Tony Blair] é um grande colega meu e temos estado juntos em muitas batalhas nos últimos anos. Um Labour que não tem espaço para Alastair Campbell é um Labour que está francamente diminuído..Como escocês como vê a possibilidade de o Brexit abrir a porta a um segundo referendo sobre a independência da Escócia? Durante cinco anos, desde que Nicola Sturgeon se tornou primeira-ministra da Escócia, na sequência o referendo de 2014, ela trabalhou pela independência. Apesar de todos os seus esforços, o apoio à independência mantém-se nos 45%, como em 2014. Ela acreditou que o referendo do Brexit em 2016 faria subir o apoio à independência e a um segundo referendo. Mas depois viu o seu partido perder parte dos seus lugares nas eleições antecipadas de 2017. Por isso, não acredito que a independência é inevitável, da mesma forma que não acredito que um segundo referendo sobre a independência é inevitável. Mas também tenho consciência de que muitos de nós na Escócia se sentem hoje em dia esmagados por uma narrativa nacionalista que vem dos dois lados: dos nacionalistas escoceses no governo da Escócia, que nunca foram a maioria na Escócia, mas falam como se fossem, e pelo nacionalismo do governo de Inglaterra embrulhado neste projeto do Brexit. Há um partido conservador e unionista que não é nem unionista nem conservador. Continuo a acreditar que a resposta para a ira, nacionalismo e fronteiras não é mais ira, nacionalismo e fronteiras. Sou escocês, tenho orgulho nisso, tenho um profundo sentido de identidade britânica e também de identidade europeia. Muitos de nós na Escócia sentem-se escoceses, britânicos e europeus..Em todos os debates sobre o Brexit na Câmara dos Comuns, vimos o líder parlamentar do Partido Nacionalista Escocês, Ian Blackford, lembrar que a Escócia votou pelo Remain e que se for preciso um segundo referendo sobre a independência para que a Escócia permaneça na UE após o Brexit é isso que farão... Eu votei por ficar na UE e não votei pela independência da Escócia. Rejeito a ideia de que os 62% que votaram na Escócia a favor da permanência da UE querem também a independência da Escócia. Não. Votámos noutra questão. Estávamos a fazer outra escolha. Eu acredito numa união multinacional, multicultural, multiétnica, chamada Reino Unido. E também acredito no mesmo em relação à UE. Os nacionalistas não conseguem explicar porque é que ser parte de uma união é tão bom, mas ser parte de outra união é tão mau. Há aí uma clara inconsistência..No passado trabalhou tanto com Ed como com David Miliband. E, tal como este último, trabalha atualmente mais na área da ajuda humanitária e da luta contra a pobreza. Acha que David Miliband está interessado em ser o próximo líder do Labour? estive com o David na quinta-feira à noite quando ele foi ao King's College dar uma palestra. Eu sou professor convidado do King's College. E nessa palestra ele falou naquilo que classificou como "a nova era da impunidade", com líderes em todo o mundo que acham que a lei é só para os palermas, sentindo-se confortáveis em quebrar as regras, quer seja a nível nacional ou a nível de política externa. Ao ouvi-lo falar - e conversando com ele depois - é claro que ele está a fazer um trabalho importante no International Rescue Committee, mas também mantém um compromisso profundo com o Reino Unido. Neste momento ele vive e trabalha nos EUA. Se ele pensa que pode voltar e dar um contributo, isso é com ele. Tem havido várias sondagens ao longo dos anos, David Miliband já era favorito em 2010 na corrida à liderança do Labour, mas depois quem ficou na liderança foi o irmão, Ed.