A mudança é o corolário da evolução das sociedades. Quem a recusou não sobreviveu à erosão do tempo. Ao longo da história, e à imagem das grandes metrópoles do mundo, as transformações de Lisboa fazem parte da sua natureza e são, em boa medida, a razão do seu sucesso contemporâneo..Já nos anos 1950, novas geografias levaram os bairros industriais para as periferias e com estes os operários que até então viviam no centro da cidade. Paralelamente, os bairros portuários foram depauperados pelos princípios da especialização que, substituindo os homens por máquinas, geraram desemprego e deslocalização das zonas residenciais. A pauperização popular do centro continuou com a liberalização do crédito bancário que convidada a burguesia a comprar a sua habitação nas cidades adjacentes a Lisboa, onde a especulação imobiliária era menor. Nessa altura, a função residencial do centro estava já comprometida..Nos anos 1980, uma nova esperança surge para estes centros urbanos com a emergência duma economia terciária que desencadeou uma nova classe social - os profissionais liberais -, que prosperava e instalava-se nos bairros históricos do centro urbano. O centro era até então desertificado ou habitado por seniores protegidos pelas leis do arrendamento que foram preteridos por estes novos habitantes. Nestes anos, a especulação imobiliária conduziu a um agravamento da carga fiscal sobre os imóveis claramente desmobilizadora para residentes com menos recursos financeiros. A valorização dos imóveis e a carga fiscal associada levou a que, na década de 1990, viver no centro da cidade fosse incomportável para a esmagadora maioria das famílias. A resposta da população traduziu--se no agravamento do processo de despovoamento a que se assistia desde os anos 1950, período ao longo do qual se perderam antigos habitantes, receberam-se novos, mas manteve-se um quadro de desertificação do centro onde o crescente número de prédios devolutos convidava à marginalidade..Com a liberalização da lei do alojamento hoteleiro, em 2015, atribui-se ao centro urbano uma função turística. Em prol desta nova versatilidade, centenas de casas devolutas são recuperadas e o centro urbano ganha uma nova vida. A presença dos turistas devolve ao centro a função humana que tinha perdido. Em 2015, o número de licenciamentos para reabilitação cresceu 30,4% face a igual período do ano anterior, contrariando a tendência nacional (Instituto Nacional de Estatística, 2016)..É certo que esta quarta vaga de gentrificação gerou protestos por parte dos antigos habitantes, mas convém lembrar que o abandono do centro enquanto zona residencial começou nos anos 1950, não em 2015. Lisboa possui 547 mil residentes (INE, 2016) e recebe diariamente 925 mil pessoas que trabalham ou estudam na cidade. Da década de 1950 até à primeira década do século XXI, a perda populacional na capital foi crescente. O êxodo urbano de 257 mil pessoas, cerca de um terço da população, retirou-lhe a função residencial, processo que hoje se imputa ser da responsabilidade exclusiva do turismo, culpa que os números não confirmam com a clareza que os críticos apresentam..A sugestão de inversão de mudança plasmada nos números referidos não é, assim, consensualmente percebida. O manifesto mais ou menos explícito deste movimento culpa os turistas pelo êxodo urbano. Não se nega que seja uma razão, mas é uma razão que esconde a outra parte da verdade, aquela que nos mostra que das múltiplas vezes que mudámos a cidade este êxodo também aconteceu, mas com proporções maiores do que aquelas que hoje podemos testemunhar..O corolário deste processo foi, durante anos, a sinistralidade e a insegurança bem patentes no centro durante a noite e nos arredores da cidade durante o dia. Hoje a cidade está mais bonita, os edifícios reabilitados sucedem-se, os idosos que ainda habitam nestes locais não estão sozinhos, a segurança e a vida nestes perímetros é evidente, e até a famigerada especulação afinal está a decrescer sem que o turismo dê mostras de abrandar e, pelo contrário, continue a crescer todos os dias..Outras externalidades menos positivas persistem, mas podem ser reguladas. Num quadro de múltiplas transformações que terminaram sempre com a descaracterização e a desertificação, vale a pena aproveitarmos o clima favorável e devolver ao centro urbano as funções que lhe competem, como o turismo, os serviços ou a cultura, naturalmente com a moderação e a razoabilidade necessárias para não descaracterizar o que temos e os demais aspetos da identidade da cidade..Sem comprometer a qualidade de vida que turistas e os já escassos residentes no centro merecem, deixemos os mercados funcionar, porque haverá sempre uma mão invisível ou mais visível que garantirá o justo equilíbrio e o bem-estar social associado. A evolução da cidade tem de ser pensada, melhorada e definida com estratégia. No entanto, qualquer que seja o caminho decidido, este não pode ser sinónimo de parar as transformações que têm salvaguardado a vida da cidade ao longo de toda a sua história..Diretora da Escola de Turismo e Hospitalidade da Universidade Europeia