A terceira dimensão

Ao mesmo tempo que Avatar revoluciona a história do cinema e bate recordes de bilheteira, os fabricantes capricham em equipamento cada vez mais sofisticado e mostram que o 3D tem tudo para se tornar uma ferramenta de todos os dias. A vida ganha uma profundidade diferente...<br />
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PANDORA ESTÁ cheia de animais selvagens, de murmúrios, de roçares, pelo contrário o povo nativo amante da natureza, os Na’vi, percebe que o homem pode ser muito mais letal do que a atmosfera tóxica e dá a vida para assegurar o equilíbrio e a diversidade daquele planeta onde as cores são poderosas, os corpos têm profundidade e os objectos ganham sombras e luz. Nada se perde aos olhos do telespectador quando os colonizadores humanos desenvolvem o programa Avatar com o objectivo de se aproximar do clã Omaticaya. E o pormenor é absoluto quando o soldado paraplégico Jake Sully (Sam Worthington) volta a sentir a terra nos pés, se apaixona por Neytiri (Zoe Saldana) ou reúne as tribos para defender Pandora, passando a mensagem de que fazemos todos parte de uma rede energética global que importa preservar. Nem o próprio James Cameron sonhava até que ponto o seu Avatar iria revolucionar assim a história do cinema e da terceira dimensão.

«O 3D é uma técnica que as pessoas adoram por natureza, uma experiência diferente, e as pessoas querem é experimentar coisas diferentes», justifica Marco Neiva, de 24 anos, natural de Barcelos e licenciado em Computação Gráfica e Multimédia pelo Instituto Politécnico de Viana do Castelo, para quem «a timidez do público se tem devido às más experiências do passado». Em Portugal, Neiva criou este ano a primeira empresa dedicada exclusivamente à produção de conteúdos 3D (a HyperCube – Produções Estereoscópicas 3D), está nesta fase a adquirir material de topo para a produção dos mesmos e considera que «o 3D tem tudo para se tornar uma tecnologia do dia-a-dia e deixar de ser mera atracção de feira» logo que os fabricantes envolvidos na corrida possam resolver as limitações tecnológicas e económicas existentes até à data, nomeadamente a exigência de equipamento mais sofisticado, compatível e caro e de equipas maiores e a necessidade de se compreender esta nova linguagem para tirar o máximo partido dela.

«Antes de as pessoas se renderem, é necessário que as grandes produtoras e os realizadores mundiais se rendam primeiro e mostrem que o 3D está aí e pode ser usado como mais uma ferramenta para ajudar a contar uma história», explica o empreendedor português, sublinhando o facto de ter havido outros filmes antes de Avatar que também utilizaram esta tecnologia sem, no entanto, se tornarem êxitos de bilheteiras ou baterem o seu próprio recorde – como sucede com o realizador James Cameron, que já ultrapassou o (também seu) filme mais rendível de sempre antes de Avatar, Titanic.

Só em 2009 os portugueses viram 15 filmes projectados a três dimensões, desses, as animações Idade do Gelo 3 e Up – Altamente foram dos mais vistos e para 2010 são já esperadas as estreias de pelo menos sete filmes feitos em 3D, entre os quais Alice no País das Maravilhas, de Tim Burton, em Março, ou Shrek para sempre e Toy Story 3, ambos anunciados para Julho.

«Com a quantidade de filmes que irão sair este ano e os que estão neste momento a ser produzidos, é caso para dizer que 2010 será o ano em que as pessoas vão aceitar o 3D como a forma natural de ver cinema no futuro», observa Marco Neiva, considerando o investimento uma tentativa de atrair espectadores para novas experiências ao mesmo tempo que se combate a pirataria. O facto de o 3D chegar em força, além disso a suportes como a televisão, os computadores e os videojogos, permitirá ainda que a revolução da imagem tridimensional chegue ao reduto dos lares numa nova e bem mais agradável realidade no conforto do sofá. É a interactividade prometida pelo 3D somada aos recursos existentes no mercado do home video. Tudo está em aberto agora que o «efeito Avatar» veio para ficar, abrindo ao mundo a terceira dimensão.

O filme de James Cameron projectado em diversas apresentações e stands a par de demonstrações em série de televisores com imagens em três dimensões foram precisamente os vendavais de renovação que fizeram subir a febre da Consumer Electronics Show (CES) de 2010, realizada entre 7 e 10 de Janeiro em Las Vegas e conhecida de todos os aficionados por ser a maior feira de tecnologia do mundo. Numa entrevista, Cameron confessou ter esperado mais de uma década até desenvolver a tecnologia de que precisava para contar aquela história idealizada há muito e afirma que Avatar será o grande teste na revolução iminente no modo de fazer cinema. Da mesma forma, a CES aproveitou a deixa para entrar agora na onda com televisores, leitores de Blu-ray, PC, notebooks, câmaras capazes de gerar e reproduzir conteúdos tridimensionais, óculos que melhoram a experiência de ver em 3D (a Panasonic e a Mitsubishi não quiseram deixar os seus créditos por mãos alheias), a PlayStation 3 3D (totalmente adaptada para conteúdos tridimensionais pela Sony, mediante uma actualização de firmware) e vários jogos para telemóveis (entre eles The Sims 3, Asphalt 5, Brain Challenge e Need for Speed Undercover) com os quais a Palm procurou impulsionar a sua nova gama de telefones Pre Plus e Pixi Plus, mais avançados que o Palm Pre apresentado ao público na CES do ano passado.

Também a Microsoft aproveitou a visibilidade da feira para anunciar que o seu Project Natal, orientado pelo líder criativo americano Kudo Tsunoda, vai finalmente chegar às lojas até ao final do ano para revolucionar o universo dos videojogos: o acessório – uma aposta interactiva para a consola Xbox 360 – é composto por diversas câmaras e microfones que captam os movimentos do jogador, dispensando o uso de joystick para jogar. O presidente da divisão de entretenimento da Microsoft, Robbie Bach, já fez saber que esta utilização do próprio corpo para controlar a dinâmica dos jogos se trata da «derradeira fronteira no terreno da interacção» e um desafio que obrigou a companhia a trabalhar afincadamente nas últimas duas décadas.

Quanto à nVidia, uma das mais populares fabricantes de chips gráficos para jogos, telemóveis e computadores, já permite usar óculos sem fios que se ligam ao PC por meio de uma base USB, daí resultando que o utilizador beneficia da experiência de jogar e ver vídeos com a mesma profundidade oferecida nas salas de cinema. Depois de a Acer ter lançado aquele que é considerado o primeiro portátil com capacidade para exibir imagens estereoscópicas usando óculos com polarização circular – o Aspire 5738PG – e o Aspire 5738DG (um notebook que pode replicar uma experiência em 3D a partir de conteúdo padrão 2D), a Asus está a desenvolver dois modelos de portáteis que integram tecnologia 3D Vision igualmente desenvolvida pela nVidia: o G51J, equipado com um Core i7 e uma GeForce GTX 260M, e o UL50VS, com processador CULV, GeForce GT210M e autonomia de 12 horas. E a Vuzix, confiando em que o caminho dos jogos (e não só) passa pela realidade aumentada – onde imagens reais se misturam com outras virtuais –, apresentou uns óculos equipados com câmaras estereoscópicas capazes de fazer que as personagens e os objectos do jogo «apareçam» na sala dos utilizadores.

Aliás, em se tratando de realidade aumentada, a empresa portuguesa YDreams, na linha da frente da investigação mundial, também só podia marcar presença na CES. E foi isso que fez, em parceria com a norte-americana Canesta, produtora de webcams que registam imagens em três dimensões enquanto a tecnológica lusa se encarrega do software capaz de usar os movimentos captados pelas câmaras para proporcionar formas de interacção com uma imagem. A partir daí, são muitas as aplicações possíveis, inclusivamente «entrar» na televisão e interagir com os conteúdos através de movimentos ou gestos.


«No telemóvel, por exemplo, há inúmeras opções que ainda não foram exploradas: na área da microgeografia, uma pessoa pode chegar a uma loja para fazer compras e saber exactamente onde está um dado objecto porque já o viu antes, porque o telemóvel assume essa componente de aumentar a realidade. Também pode revolucionar o ensino servindo de complemento: tendo um livro de matemática na mão posso simultaneamente seguir um vídeo da professora a explicar a matéria, ou posso estar a ler um livro e ir vendo imagens 3D a sair do ecrã», explica o director executivo da YDreams, António Câmara, considerando ainda que na televisão o grande desenvolvimento «vai ser o facto de ela se basear na web e servir-se de câmaras 3D que nos permitirão usar o dedo como um mouse para explorar o ecrã».

A TERCEIRA dimensão é uma ilusão da mente possível graças a um fenómeno natural chamado estereoscopia, que consiste na projecção de duas imagens da mesma cena em pontos de observação ligeiramente diferentes: o cérebro funde então automaticamente essas duas imagens numa só, obtém a informação da profundidade e gera a tal ilusão da visão tridimensional. Na captação devem então ser filmadas duas imagens ao mesmo tempo, com a correcção de enquadramento a ser feita por softwares específicos, em tempo real, que reduzem as oscilações na imagem e deixam a composição mais realista.

De resto, o futuro voltou a aparecer limpo aos olhos dos visitantes da CES 2010 quando a Panasonic, a Samsung e a Sony apresentaram as suas mais recentes linhas de televisores de alta definição com telas LED e suporte a imagens 3D (que por enquanto ainda requerem óculos especiais semelhantes aos usados nos cinemas, que sincronizam os olhos com as imagens do ecrã dando uma sensação de profundidade inimaginável). Os dois últimos gigantes foram ainda mais longe e revelaram a negociação de parcerias para a produção de conteúdos específicos: a Sony aliou-se ao Discovery e à Imax pensando em criar até ao final do ano um canal de emissão contínua (o da ESPN apenas terá programação a tempo parcial), exclusivamente voltado para o 3D e em que a programação incluirá música, desporto, filmes e outras temáticas. Ao mesmo tempo, a Samsung fez parceria com a Technicolor e a DreamWorks de modo a levar a mesma experiência a casa dos consumidores com alternativa de produtos. Já a Panasonic, que planeia vender cerca de um milhão de televisores 3D logo no primeiro ano após o lançamento, está a formar aliança com a DirecTV (serviço por satélite) com vista à criação de três canais tridimensionais de alta definição até Junho deste ano.

Apostada em não perder a corrida tecnológica para as rivais, a Intel aproveitou igualmente a CES para mostrar o protótipo de uma televisão 3D que não requer o uso de óculos, desde que o utilizador se encontre num dos locais predeterminados onde a experiência tridimensional possa funcionar conforme o esperado (o processo ainda está numa fase incipiente, mas o trabalho dos técnicos continua no sentido de futuramente se obter o máximo potencial do produto). Também a LG Electronics, de atenção voltada para a nova série Infinia LE9500, confirmou que a partir de Maio se prepara para comercializar, nos EUA, os seus primeiros televisores de ecrã plano com capacidades 3D.

«A estereoscopia 3D teve já três grandes fases, uma das quais na década de cinquenta, em que se produziram mais de oitenta filmes, e outra na de oitenta, com a produção de mais de sessenta filmes», situa Marco Neiva, para quem este momento marca o início da terceira fase «em que finalmente o 3D irá implantar-se». No meio deste frenesim, adianta o fundador da HyperCube, pode comparar-se o seu aparecimento com a emergência do som na era do cinema mudo, ou com a transição da imagem a preto e branco para as imagens a cores.
A Sony lançará três séries da Bravia 3D e terá o XBR-LX900 (já com óculos incluídos no pacote) como topo de gama. A Vizio espera por Agosto para lançar a série 3D XVT Pro, enquanto o modelo Toshiba Cell TV utiliza o mesmo processador que a PlayStation 3 e converte 2D em 3D, a série LED7000 da Samsung recebeu, também ela, funcionalidades 3D e todos os televisores superiores a sessenta polegadas da Mitsubishi para home theater são 3D Ready e pedem o uso de óculos activos.

A Fujifilm, no corpo da sua nova Finepix Real 3D W1, encontrou na tridimensionalidade um factor de distinção no segmento das máquinas fotográficas digitais compactas: graças a um ecrã LCD de 2.8 polegadas com capacidade para reproduzir imagens 3D, a câmara faz fotos em três dimensões sem requerer óculos especiais para visualizá-las. Em matéria de webcams, a Minoru 3D – concebida pelo designer David Holder e com o aspecto de um pequeno robot – é a primeira que propõe comunicações vídeo em imagens tridimensionais, baseando-se o seu funcionamento em duas câmaras de vídeo (e óculos que permitem ver essa sugestão de profundidade) colocadas sensivelmente à mesma distância da que separa os olhos humanos para criar um efeito estereoscópico.

A Blu-ray Disc Association garantiu que o padrão da especificação 3D para a tecnologia Blu-ray está pronto, o que significa que vai funcionar em qualquer televisor compatível com 3D, levar as imagens tridimensionais ao cinema caseiro e espicaçar as marcas a desenvolver os primeiros leitores de vídeo digital com suporte para 3D (neste ponto, a Panasonic já anunciou o seu DMP-BDT350, a Samsung apresentou o BD-C6900, com suporte para Internet TV em sites como o Twitter, Netflix e Pandora, e a Sony deu a conhecer o seu BDP-S770, que também suporta discos de DVD e Blu-ray 2D e traz um aplicativo de controlo remoto para iPod Touch e iPhone).

Outra grande aposta passa por aproveitar as telas LCD – aumentando a frequência de 60 para 120 e 240 Hz, de modo a permitir imagens em movimento mais nítidas – para dar a sensação de profundidade sem ter de se usar óculos especiais. O segredo do efeito tridimensional está nas telas de cristal líquido: quando combinada a maior frequência da transição das imagens com lentes especiais, é projectada uma imagem que o olho humano capta como sendo em terceira dimensão. Os especialistas avisam, porém, que falta ainda desenvolver muita coisa até ao produto final e que os custos são, para já, proibitivos.

NO MOMENTO em que tiver início o Campeonato do Mundo de Futebol 2010 na África do Sul, em Junho, 25 jogos seleccionados serão filmados com recurso a câmaras profissionais destinadas a mostrar «uma cobertura de acção a uma profundidade sem precedentes», anunciou já a Sony, que numa iniciativa inédita se tornou parceira da FIFA para captar imagens em 3D de algumas partidas e assim levar a paixão do interior dos estádios a mais pessoas em todo o mundo.

Ainda no final de Novembro de 2009, quando o Sporting jogou contra o Benfica numa jornada da Liga Sagres, a Sport TV filmou experimentalmente (e para consumo interno) o derby utilizando duas câmaras que captavam cada imagem em simultâneo e um ecrã LCD especial para o efeito (com o visionamento a necessitar de óculos especiais). Segundo Nuno Ferreira, director da estação de televisão que transmite em sinal codificado, no futuro, quando a tecnologia 3D estiver mais desenvolvida e se tornar corrente, em vez de se filmar um jogo com vinte câmaras terão de ser usadas quarenta, duas em cada posição, de forma a simular a visão humana. No entanto, ressalva José Mourão, engenheiro e director do Departamento Técnico e Operacional da Sport TV, tal cenário é ainda longínquo e requer um longo caminho a percorrer sobretudo enquanto forem necessários os óculos, enquanto não houver experiência acumulada que permita resolver as dificuldades técnicas e operacionais nos directos em 3D e enquanto o HD (televisão em alta definição), ele próprio tão recente, continuar a colocar exigências tantas vezes difíceis de contornar.

«No caso da experiência com o derby Sporting-Benfica trabalhámos com uma empresa espanhola que queria projectar os principais jogos em salas de cinema com óculos, mas suspendeu o projecto porque as operadoras ainda não estão habilitadas a fazer os directos e ninguém paga para ver um jogo e ficar aflito da vista ao fim de trinta minutos», explica o engenheiro, considerando que a relação custo/benefício está ainda longe de ser rendível. Nas peças montadas é possível corrigir as anomalias e uma série de parâmetros relacionados com a perspectiva, o contraste, a posição relativa dos objectos em primeiro ou segundo planos e outros que contribuem para que o resultado seja apelativo e não crie cansaço. Todavia, o processo é ainda incipiente. «Na Sport TV estamos muito atentos à evolução do 3D, vamos lá fora ver o que aparece de novo e pensamos que o futuro passa por aí, mas saber a que distância está esse futuro é uma incógnita», diz o responsável, garantindo que a estação desportiva não dá passos maiores do que a perna, para não correr o risco de fazer «uma enorme espargata». É esperar para ver como o 3D evolui.

O próprio YouTube, o maior site de partilha de vídeos, já lançou aos utilizadores o repto de produzirem vídeos com efeitos tridimensionais, começou a disponibilizar alguns de experimentação em 3D e está a trabalhar no desenvolvimento de um player estereoscópico para mostrá-los ao mundo. Trata-se de um novo desafio para os internautas, que na captação das imagens irão precisar agora de usar duas câmaras alinhadas a uma distância equivalente à dos olhos, a editar terão de coordenar num único frame as imagens recolhidas por cada câmara (para fazer o upload do vídeo há que incluir a tag yt3d:enable=true) e recorrer aos óculos da praxe para visualizar o resultado final em casa. É todo um admirável mundo a desbravar.

Diz-me que idade tens, dir-te-ei quanto podes ver...

Porque as imagens tridimensionais resultam mais reais aos olhos de quem vê, os especialistas alertam para a possibilidade de o 3D desenvolver ansiedade, stress e até mesmo perturbações do sono nos mais novos.  O primeiro reparo partiu da neurologista Teresa Paiva, preocupada com a forte estimulação sensorial do 3D nos menores de 12 anos e os riscos de tal se traduzir em dores de cabeça, distúrbios de sono, fadiga visual, enjoos e sensação after image. Numa altura em que Avatar é visto maciçamente por pais e filhos desde que se estreou a 17 de Dezembro (logo nas duas primeiras semanas alcançou os 410 535 espectadores) e estão na calha vários outros filmes nos mesmos moldes tecnológicos, há então que apostar num certo cuidado de exposição e não facilitar o acesso indiscriminado às crianças, mais susceptíveis de não perceberem até que ponto a ficção e a realidade se misturam. «A forte estimulação sensorial pode ter implicações para o sistema nervoso central», aponta Teresa Paiva, fundadora do Centro de Electroencefalografia e Neurofisiologia Clínica e professora na Faculdade de Medicina de Lisboa, lembrando a existência de casos de descargas epilépticas provocadas por jogos de computador e luz strobe. Não são ainda conhecidos os efeitos do 3D na saúde humana, mas, na falta de certezas, prevenir e moderar continuam a ser os melhores remédios.

Sensações especiais

A Consumer Electronics Show confirmou este ano em Las Vegas que o 3D veio para dominar 2010, mas existem muitas outras aplicações insuspeitas dos conteúdos tridimensionais, não abordadas na CES, que prometem fazer as delícias dos adeptos deste modo de ver realista. Na AVN Adult Entertainment Expo, a maior feira norte-americana dedicada à indústria para adultos (também realizada em Janeiro em Las Vegas), a empresa Bad Girls apresentou um vídeo erótico numa televisão de alta definição de sessenta polegadas, em 3D, que os visitantes puderam seguir atentamente munidos de óculos especiais sem perderem pitada dos pormenores. Em 1969 já o filme softcore The Stewardess, escrito e realizado por Allan Silliphant e enriquecido com a graça curvilínea de Monica Gayle, Donna Stanley, Christina Hart e Paula Erickson, havia mostrado o potencial do 3D no entretenimento adulto ao apostar em cenas eróticas e arrecadar, nos dois anos que se sucederam ao lançamento, cerca de 19 milhões de euros nos cinemas norte-americanos. Agora, a Bad Girls pretende disponibilizar os seus conteúdos tridimensionais online num pacote que inclui a tal HDTV de sessenta polegadas capaz de reproduzir imagens em 3D, um computador servidor compacto e óculos especiais, juntamente com a assinatura mensal do catálogo de vídeos online da empresa. É caso para dizer que as meninas boas vão para o céu, mas as «más» vão correr em todos os lares...

Regresso ao passado

É grande o pasmo do público com a incrível qualidade das imagens dos filmes em 3D de hoje, mas nada supera a surpresa dos primeiros tempos quando em 1980 a RTP, então o único canal português, transmitiu O Monstro da Lagoa Negra e o país parou para comprar os rudimentares óculos especiais com uma lente vermelha e outra azul e assistiu, siderado, ao filme de 1954 realizado por Jack Arnold. Outro clássico que tirou o melhor partido da profundidade para explorar o medo do público foi o Frankenstein de Andy Warhol (Carne para Frankenstein, 1973; só chegou a Portugal depois do 25 de Abril de 1974), originalmente filmado em 3D para melhor narrar as tentativas que o Barão faz para aperfeiçoar um casal de zombies que lhe obedeça cegamente e, de caminho, procrie com vista a criar uma nova raça às ordens de Frankenstein.

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