A simetria impossível do universo e as partículas fundamentais

Publicado a
Atualizado a

Nobel. Prémio da Física 2008

Dois cientistas japoneses e um americano de origem japonesa ganharam ontem o Prémio Nobel da Física 2008, pelo seu trabalho sobre o mecanismo da quebra de simetria na física de partículas. As ideias de Yoichiro Nambu, que ganhou metade do prémio, e da dupla Makoto Kobayashi e Toshihide Maskawa, que ganhou a outra metade, permitem iluminar um dos maiores mistérios da natureza: de que maneira se formou o universo.

Sem o efeito da quebra de simetria, a própria matéria não poderia existir. A teoria explicativa foi formulada em 1960 por Nambu, agora com 87 anos e então na Universidade de Chicago. A ideia é hoje um dos fundamentos do chamado modelo-padrão da física de partículas, que os cientistas tentam comprovar nas experiências realizadas em aceleradores, tais como o gigante LHC europeu, recentemente inaugurado. O modelo-padrão pretende explicar a matéria do universo que podemos observar (na realidade, apenas 5% do total, pois não incluía matéria-escura e a energia-escura).

Na origem do universo, no Big Bang, há 14 mil milhões de anos, deviam ter sido criadas iguais quantidades de matéria e de antimatéria, que se iriam anular, impossibilitando a nossa existência. Segundo sublinha o comunicado da Real Academia das Ciências sueca, "tal não aconteceu", devido aos mecanismos de "quebra espontânea de simetria".

Para se entender a ideia, deve pensar-se num lápis afiado, que cai na vertical: antes da queda, em perfeita simetria; durante a queda, inclinando-se sobre um dos lados. "Houve um minúsculo desvio de uma partícula suplementar de matéria por cada dez mil milhões de partículas de antimatéria", lê-se no comunicado.

Em 1972, Kobayashi e Maskawa, hoje com 64 e 68 anos, respectivamente, foram ainda mais longe e publicaram um artigo sobre a ruptura de simetria entre matéria e antimatéria, na altura do Big Bang. A ideia surgiu quase por acaso, após longas discussões entre os dois cientistas.

No seu artigo, Kobayashi e Maskawa, então na Universidade de Nagoia, explicavam a ruptura de simetria no âmbito do modelo-padrão, prevendo que a natureza tivesse, na realidade, três famílias de quarks (um dos componentes fundamentais da matéria).

No início do universo, a matéria era uma espécie de sopa densa e quente, chamada plasma quark- -gluão. Depois, quando esta massa arrefeceu, os quarks aglutinaram-se em protões e neutrões. No caso do modelo da dupla japonesa, o que não passava de uma previsão foi sendo confirmado pelas experiências em aceleradores de partículas, os quais têm detectado as rupturas de simetria antecipadas pelos dois cientistas.

O prémio ascende a dez milhões de coroas suecas (cerca de um milhão de euros), dividido em duas metades, uma para Yoichiro Nambu, a outra para Makoto Kobayashi e Toshihide Maskawa. A entrega da distinção será feita pelo Rei da Suécia, em Estocolmo, em cerimónia prevista para 10 de Dezembro.|

Artigos Relacionados

No stories found.
Diário de Notícias
www.dn.pt