Divulgado há poucos dias, o cartaz oficial da 76.ª edição do Festival de Cannes (16-27 maio) faz-se com uma fotografia a preto e branco de Catherine Deneuve. Foi obtida por um fotógrafo do Paris Match, Jack Garofalo, no dia 1 de junho de 1968, na praia de Pampelonne, perto de Saint-Tropez, cerca de 90km a sul de Cannes..Deneuve estava nessa zona da Côte d"Azur a rodar La Chamade/A Chamada, longa-metragem de Alain Cavalier a partir do romance de Françoise Sagan. O filme é uma pérola pouco lembrada dos tempos finais da "Nouvelle Vague", talvez porque Cavalier sempre foi entendido como um autor algo marginal (o que, convenhamos, faz algum sentido), ou ainda porque o gelo romântico de Sagan não seria um tema dominante na França abalada pelas convulsões do mês de maio daquele ano de 1968... Aliás, com reflexos dramáticos no próprio festival: os protestos de muitos profissionais de cinema contra a decisão do ministro da Cultura, André Malraux, de destituir o lendário diretor da Cinemateca Francesa, Henri Langlois, foram o rastilho para várias formas de contestação da própria organização de Cannes, levando a respetiva direção a cancelar o festival no dia 19 de maio, nove dias depois da abertura oficial (com uma cópia restaurada de E Tudo o Vento Levou). Resultado prático: nesse ano não houve palmarés..Obtida junto ao mar, a imagem de Deneuve resulta de uma pose ligeira e despreocupada ("nonchalante", dirão, talvez, os franceses) que é um esclarecedor sintoma da transfiguração que, na época, marcava a iconografia, e também o imaginário, das estrelas de cinema: a teatralidade das fotografias de estúdio dava lugar a este tipo de "improviso", favorecido pela luz natural..Era, aliás, uma dinâmica, de uma só vez estética e simbólica, com efeitos importantes na transfiguração das imagens das atrizes. A esse propósito, vale a pena recordar alguns títulos que, no mês anterior, surgiram na programação de Cannes. Pensemos, por exemplo, nas personagens femininas de Charlie Bubbles, de Albert Finney, Peppermint Frapée, de Carlos Saura, ou Petulia, de Richard Lester - interpretadas, respetivamente, por Liza Minnelli, Geraldine Chaplin e Julie Christie. A sua simples existência permite reconhecer que os discursos contemporâneos que apontam a riqueza dramática das mulheres nos filmes como uma "consequência" do movimento #MeToo resultam da mais cínica má fé, ou são produto de uma militante ignorância da história do cinema..DestaquedestaqueCatherine Deneuve está no cartaz oficial do Festival de Cannes, protagonizando uma bela lição cinéfila..Deneuve tinha já surgido em alguns filmes essenciais, não apenas na definição da sua "persona" cinematográfica, mas também no desenvolvimento de um complexo questionamento dos parâmetros clássicos do próprio conceito de personagem (masculina ou feminina). Lembremos Os Chapéus de Chuva de Cherburgo (1964) e As Donzelas de Rochefort (1967), ambos de Jacques Demy, Repulsa (1965), de Roman Polanski, ou Belle de Jour (1967), de Luis Buñuel - sem esquecer, claro, A Sereia do Mississipi, de François Truffaut, cuja rodagem começou ainda em 1968, estreando-se apenas no ano seguinte..Os Chapéus de Chuva de Cherburgo arrebatou a Palma de Ouro de 1964, transformando Deneuve numa estrela. A consagração do filme é tanto mais curiosa quanto emerge na história de Cannes como uma insólita exceção. Por ser um filme musical? Não exatamente: afinal de contas, filmes cuja matéria musical é determinante - pensemos em objetos tão diversos como All That Jazz (1980), de Bob Fosse, e Dancer in the Dark (2000), de Lars von Trier - viriam também a ser distinguidos com a Palma de Ouro. Antes porque Os Chapéus de Chuva de Cherburgo é o único título da "Nouvelle Vague" com uma Palma de Ouro....Dir-se-ia que a cristalização da história dos filmes se faz de contrastes como este, levando-nos a resistir a qualquer formatação das suas narrativas e "mensagens". A imagem de Deneuve que, agora, graças a Cannes, ganha uma vida nova, envolve uma lição cinéfila: a ambiguidade da pose, cruzando a sedução da naturalidade com a precisão do artifício define o enigma da estrela - porque a naturalidade não é o naturalismo, porque o artifício não exclui a vibração de uma verdade intemporal..Jornalista