Por estes dias, estreou-se em Telavive um espectáculo de dança inspirado pelo Diário e pela vida de Anne Frank. O facto, aparentemente trivial, torna-se notícia quando se sabe que o espectáculo começou por ser concebido na Venezuela para exibição local e foi proibido por ordem de Hugo Chávez, que "sugeriu" aos coreógrafos a troca do tema pelo do "sofrimento palestiniano". Perante a recusa, as autoridades revolucionárias lá do sítio fecharam a companhia, que acabou por se transferir para Israel. .Não é a primeira vez que o régulo de Caracas exibe o seu anti-semitismo. Em frequentes ocasiões, a criatura teve oportunidade de perorar sobre a "ameaça" do "judaísmo internacional" e da comunidade judaica local, cuja antiguidade e cujo papel no apoio a Bolívar não a livraram da inédita perseguição de que vem sendo alvo desde o feliz advento do "chavismo". Entretanto, um país relativamente omisso nessas tendências já assistiu à profanação de sinagogas, à disseminação de graffiti com palavras de ordem comuns na Alemanha de 1933, a ataques de forças policiais a escolas e clubes hebraicos, à proliferação da retórica do ódio na imprensa e nas televisões do regime, à distribuição oficiosa de edições dos Protocolos dos Sábios do Sião, à formação de uma filial latina do Hezbollah e, claro, às diatribes do próprio Chávez contra "aqueles que crucificaram Cristo". .Se os media costumam deixar claríssima a relação entre o ódio aos judeus e a extrema-direita, são pouco propensos a mostrar idêntica disposição na extrema-esquerda. No entanto, a disposição existe desde Marx, o típico self-hating jew que, se evidentemente não a criou, consagrou a identificação do judaísmo com o capitalismo, de que só o movimento comunista - como antes Cristo, mais um judeu desavindo face à tribo - nos poderia resgatar. Decidido a tornar-se uma fé no lugar da fé, e apesar da significativa presença judaica na sua génese, o marxismo cuidou de preservar o inimigo comum. E os marxistas preservam a herança. .Chávez é apenas um exemplo célebre e historicamente recorrente desta peculiar forma de anti-semitismo. Inúmeros exemplos obscuros encontram-se, por exemplo e para não sairmos da actualidade, na inequívoca alegria com que a esquerda internacional recebeu a chamada Primavera Árabe. Para consumo dos simples, é de bom-tom afirmar que os revoltosos da Praça Tahrir e similares derrubaram uma ordem ditatorial. O que não convém dizer é que sempre a quiseram substituir por outra menos simpática para com o Ocidente, a América e, sobretudo, Israel, e que é isso o que se celebra. .Não importa que, em quase tudo, os sublevados do Norte de África pratiquem o inverso do que os comunistas do lado de cá em teoria defendem: importa a aversão que ambos alimentam pelo materialismo libertino e progressista que define a nossa civilização, e que os judeus justa ou injustamente personificam. Fogueira com eles? Fogueira connosco. Afinal, não devia ser novidade que a mítica libertação de todos os povos implica a opressão de, no mínimo, um deles. E que os assassinos de Anne Frank possuem hoje curiosos aliados. .Primeiro, confesso: vi o Portugal-Espanha. Em seguida, pergunto: o que foi aquilo? Falar em tanto barulho por nada não descreve a desproporção entre a efervescência que precedeu o jogo e o jogo propriamente dito. .Embora eu tenha nascido numa família de futebolistas e sido, durante a mocidade, um espectador assíduo de futebol nos campos, desde 2004 e das bandeirinhas do Sr. Scolari que nem pelo televisor seguia uma partida do princípio ao fim. Mas ou a minha perspectiva da bola mudou muito ou a bola mudou ainda mais: tal como se pratica hoje ou como hoje o vejo, o futebol é chato, chatíssimo, um aborrecimento só equivalente a uma sessão do Canal Parlamento ou uma troca de impressões com um mediador de seguros. .Os peritos (e, consta, os resultados) decretaram que a selecção espanhola é a melhor do mundo. Infelizmente, no desafio em questão acertou com dificuldade dois passes e provou ser concorrente respeitável de um hipnótico de potência média. Os mesmos peritos concluíram que a selecção portuguesa saiu com a cabeça proverbialmente erguida. Por azar, não apontou um singelo remate à baliza adversária e falhou dois dos quatro penáltis decisivos..Trinta mil cães mortos e muita histeria depois, a selecção terminou o campeonato da maneira como o começara, sem títulos, com três estações televisivas a acompanhar em directo o percurso aéreo da comitiva, o poder político a beatificar os heróis do momento e diversos filósofos instantâneos a traçar equivalências metafísicas entre a vida real e o que não passa de um jogo. Chato, não sei se já disse. Se calhar, o futebol sempre foi assim e eu é que não notava. Pelos vistos, milhões também não notam. Sorte deles..Enquanto Miguel Relvas se aguenta misteriosa e jovialmente no Governo, convém lembrar que as dificuldades de relacionamento da nossa classe política com a imprensa não se esgotam no ministro dos Assuntos Futebolísticos. Ricardo Rodrigues, responsável pelo alívio de um par de gravadores aos jornalistas da Sábado que o importunaram com perguntas inconvenientes, foi agora condenado a uma pequena multa por atentados à liberdade de imprensa e à liberdade de informação (parece que a liberdade de rapinar pertences alheios permanece garantida). .O episódio ocorreu em Abril de 2010, data após a qual o sr. Rodrigues exerceu as funções de deputado à Assembleia da República e, já na corrente legislatura, acrescentou-lhes a vice-presidência da direcção da bancada parlamentar do PS e a representação da AR no Conselho Geral do Centro de Estudos Judiciários, cargos que suspendeu após a sentença e até o processo transitar em julgado. .Se não estivéssemos em Portugal, tudo isto suscitaria duas ou três estupefacções. Partindo do princípio de que sabe o que faz, o sr. Rodrigues saberá que palmou de facto os gravadores e, dado que se esqueceu de palmar a câmara e a façanha ficou registada num filmezinho popular, saberá que nós também sabemos. Ainda assim, durante dois anos nunca manifestou vestígio de arrependimento ou noção de que as suspeitas (digamos) que recaíam sobre ele eram incompatíveis com o desempenho de cargos públicos. O "sentido de responsabilidade" que, orgulhoso, o PS atribui ao Rr. Rodrigues é, além de tardio, dependente de uma decisão judicial. De resto, na cabeça do sr. Rodrigues a decisão possui um peso apenas formal: o recurso apresentado mostra que ele continua convicto de que pode aliviar jornalistas da respectiva propriedade sem consequências. .Por outro lado, a suspensão anunciada mostra que, desde que devidamente pressionado, o sr. Rodrigues lá consegue desencantar um relutante respeito pelo partido, mas a (putativa) manutenção do lugar de deputado prova que não há maneira de o sr. Rodrigues exibir pingo de respeito pelos incautos que o elegeram. E o irónico é que, apesar da péssima decisão que tomaram nas urnas, os eleitores do homem merecem ser respeitados, enquanto o PS, que como é hábito no sector legitimou, promoveu e protegeu até ao limite uma vergonha ambulante, não merece respeito nenhum. .Além de viajar até à Polónia para ver um jogo da selecção, o incontornável Miguel Relvas ainda arranjou tempo para receber a selecção na Portela. Por um lado, não admira que o homem não consiga ir ao Parlamento esclarecer a trapalhada com o Público. Por outro, é preferível que permaneça calado. No Aeroporto de Lisboa, o Sr. Relvas falou e disse-se "orgulhoso de pertencer a um país que está entre os quatro melhores da Europa". Na redução do défice? Na contenção da despesa do Estado? Na reforma da administração pública? No alívio da carga fiscal? Na liberalização da economia? Não: no futebol. E entre os quatro melhores países do mundo no hóquei em patins ou na bisca lambida, já que o Sr. Relvas tem o orgulho fácil.