Newton Lobato é o pastor na cidade de São Vicente, nos arredores de Santos, da denominação evangélica Igreja Batista Peniel, assim chamada em homenagem a Peniel, ou Penuel, ou ainda Pniel, região bíblica às margens do rio Jordão. Da sua congregação, uma das 83 espalhadas pelo Brasil, faz parte a família Silva Santos, incluindo, desde os 8 anos, o agora mais ilustre dos fiéis de Lobato: Neymar Silva Santos Junior, futebolista avaliado em 222 milhões de euros. E não é por estar distante da Igreja, primeiro em Barcelona e agora em Paris, que Neymar deixa de contribuir para a causa: revelou o próprio pastor em entrevista à revista Veja que o jogador continua a pagar religiosamente o dízimo - como o hábito nas denominações evangélicas doar um décimo do salário, a Peniel de São Vicente deve receber seis milhões de euros já em 2018. Em contrapartida, o pastor ajuda o fiel futebolista espiritualmente, como no momento mais tenso das negociações entre Barça e PSG: "Recomendei-lhe uma oração a Deus, um pedido para que Ele o orientasse e senti que ele continua com temor a Deus e com os princípios cristãos no coração." Lobato convenceu ainda Neymar a perdoar os fãs blaugrana que o possam ter ofendido no processo: "Eu sou santista e quando ele saiu do Santos também não gostei." Para o manter focado, a cada 15 dias o pastor enviará mensagens e orações ao craque de 25 anos por WhatsApp. Por WhatsApp? Sim. Por menos ortodoxo que soe rezar através de um aplicativo de telemóvel, o futuro da religião evangélica parece, como tudo no mundo de hoje, passar por aí. Defendem os pastores mais modernos que à época da sua publicação, a Bíblia, o Alcorão e a Torá também teriam sido criticados pelas alas conservadoras por representarem uma mediatização exagerada das palavras de Deus. E quem garante - perguntam ainda os religiosos mais flexíveis - que se Jesus, Moisés ou Maomé tivessem os meios de hoje à disposição não teriam pregado pelo Facebook ou pelo Twitter? Por isso, não se deve estranhar que, dois mil e alguns anos depois de Jesus se ter revoltado com os vendilhões do templo, se tenha realizado na semana passada em São Paulo a ExpoCristã, uma tradição evangélica desde 2001. E com os católicos Geraldo Alckmin e João Doria, respetivamente governador e prefeito de São Paulo e ambos pré-candidatos à presidência em 2018, solenemente na abertura para não afugentar os 30% de brasileiros que se declaram protestantes. O presidente da República Michel Temer também passou por lá, como forma de reconhecimento pelo apoio da Bancada da Bíblia durante a votação da sua denúncia por corrupção no Congresso Nacional. Segundo reportagem do jornal Folha de São Paulo, Temer, Doria e Alckmin viram stands para todos os gostos. No segmento de moda cristã, as marcas Pecado Zero e Aleluya Bells rivalizavam lado a lado; na área da restauração, o destaque era o Kit Ceia, com pão e sumo de uva, sem álcool, para representar o corpo e o sangue de Cristo, tudo no mesmo recipiente; o "sagrado óleo de unção" vendia-se em frascos de perfume da marca KZ. Noutro setor, a feira promovia um encontro de youtubers cristãos, como o canal Crente Que É Gente, além de pequenos-almoços com religiosos e conferências com mulheres de bispos. Enquanto isso, o pastor Carlos Di Capi oferecia coaching a pastores. "Os membros da sua Igreja estão desmotivados? Parece que a sua oração não está funcionando?", perguntava Di Capi. Ora, por meros 997 reais - um pouco menos de 300 euros - o teólogo prometia suprir as carências técnicas de pastores sem ânimo num curso de dois fins de semana. Agendou nove pacotes. Ao seu lado, espaço para a inovação: as empresas concorrentes Doação Solutions, Dízimo Fiel e Oferte Fácil permitem "dizimar diretamente na maquininha", segundo o folheto informativo. Logo, se hoje os fiéis já podem inclusivamente pagar o dízimo por cartão multibanco, rezar por WhatsApp, como Neymar, até parece a mais ortodoxa das práticas.