Não é uma revisão, é uma revolução constitucional a que o líder do PSD quer pôr o País a discutir nos próximos meses. Se há dúvidas sobre a dimensão desta iniciativa, façam-se as contas: a proposta mexe em 98 artigos de uma Constituição que tem 296. É um terço. Suprime 25 artigos , mais 11 alíneas, por manifesta desadequação (como o que punha uma espada sobre os que, no anterior regime, trabalhavam para a PIDE/DGS). .Esta revolução, que o DN hoje revela nas suas linhas essenciais, não muda o regime, como é óbvio. Mas ninguém poderá dizer que não aponta um caminho diferente para o País. Basta um exemplo para o provar: a eliminação de um limite ao despedimento por "justa causa", flexibilizando o termo para "razão atendível"..Passos Coelho, registe-se, mantém a coerência, o que não é pouco em política. E mostra coragem: as propostas vão trazer- -lhe críticas duras e provavelmente perda de votos. Propostas como esta serão motivo de forte crítica, à esquerda, reforçando a imagem de uma direita dita "neoliberal". Mas o novo líder social--democrata arrisca porque quer colar a si uma agenda de mudança e põe o País a discutir política e a construção do seu futuro..É claro que este passo não está isento de críticas, nem tão-pouco de riscos. Sendo a mais afirmativa das suas propostas já conhecidas, Passos Coelho verá construir à sua volta um muro de críticos, e não só socialistas. Assim se tem visto nos últimos dias, à medida que as primeiras propostas vêm a público. Marcelo Rebelo de Sousa, por exemplo, já atirou sobre uma proposta fora de tempo e Santana Lopes apressou-se a clamar contra aquilo a que chama de "atentado à história do PSD". Passos terá de estar preparado para isso. E, claro, para a inevitabilidade do chumbo da maioria das suas propostas. Mas obrigará quem o faça a explicar porquê e a dizer o que quer, em alternativa. .Insistir no Afeganistão. A própria segurança da conferência que hoje se inicia em Cabul sobre o futuro do Afeganistão será um teste tanto ao regime liderado pelo Presidente Hamid Karzai como à coligação internacional que luta contra o regresso dos talibãs. Nem mesmo a capital afegã tem escapado aos ataques dos extremistas islâmicos, que em 2001 foram derrubados mas que graças aos erros da comunidade internacional foram capazes de refazer as suas bases de apoio no Sul, habitado pela etnia pastune. Começar por admitir esses erros é o primeiro passo para tentar ainda dar um futuro ao país da Ásia Central conhecido por ser cemitério de impérios. Erros que se sintetizam na prioridade absoluta à opção militar e no apoio cego a Karzai mesmo quando este se aliava aos senhores da guerra e permitia que a corrupção alastrasse. Para o povo afegão, cedo as forças internacionais se tornaram um novo ocupante. Para isso contribuíram os chamados danos colaterais, com civis a morrer às mãos dos soldados que vieram de longe para os proteger..Reconstruir o Afeganistão é hoje mais difícil do que em 2001, quando o mundo aplaudia a reacção americana contra um país que acolhia o inspirador do 11 de Setembro. Mas é uma missão que tem de ser concretizada, caso contrário a comunidade internacional cairá em descrédito. E sobretudo convém mostrar que se pode aprender com os erros do passado, até porque a instabilidade no Afeganistão está a alastrar ao Paquistão, onde vastas regiões são habitadas por tribos leais aos talibãs. Portugal perdeu dois militares no Afeganistão. Ao todo, a coligação internacional teve duas mil baixas. Essas mortes não podem ter sido em vão. Não seria bom para o mundo, muito menos para os afegãos.