A rádio do Meio do Mundo

Carlos Dias São Tomé e Príncipe 1932-1976
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A vida de Carlos Dias dava um folhetim radiofónico. Daqueles que começou por ouvir na barbearia/livraria do pai e que, mais tarde, pôs no ar enquanto director da Emissora Nacional em São Tomé e Príncipe. Há mais de 30 anos que não vai àquelas ilhas da linha do Equador, mas garante que está lá «todos os dias».

Uma catana e um rádio. Era tudo o que bastava a um santomense para passar os dias empoleirado no topo das palmeiras a cortar andim e a apanhar cocos. Aquele pequeno aparelho tornou-se companhia inseparável na solidão das alturas e, com o mesmo altruísmo, ajudava também os trabalhadores cabo-verdianos (em maioria nas roças) a matarem saudades de casa e os «colonos» portugueses a saberem novidades do Império. Cada um, à sua maneira, combatia assim a dura insularidade de São Tomé e Príncipe, ganhando a sensação de estar um pouco mais próximo do (seu) mundo. Em Lisboa, a televisão já atraía multidões, mas nestas ilhas perdidas no Atlântico entre a linha do Equador, era a Emissora Nacional que fazia a alegria do povo.

Do lado de lá dos microfones estava «uma equipa de carolas que levava os discos de casa e tinha de desenrascar-se com um equipamento artesanal». Carlos Dias exercia o cargo de director do Emissor Regional. Nascido em São Tomé, foi estudar para a metrópole depois da quarta classe, em 1945, mas as saudades trouxeram-no de volta logo que terminou a instrução.

Começou por trabalhar na Curadoria Geral dos Serviçais (gabinete que zelava pelos interesses dos «indígenas» angolanos e moçambicanos) e foi nomeado para administrador da ilha do Príncipe em 1964, onde esteve três anos. «E se São Tomé era pequeno, então o Príncipe era minúsculo. Só havia ruas de terra batida e duas ou três famílias portuguesas, mas apaixonei-me por completo pelas pessoas e por aquela terra lindíssima», recorda, com emoção, aos 78 anos.

O grande desafio profissional de Carlos Dias foi, no entanto, o Emissor Regional de São Tomé, onde esteve quase uma década, incluindo um ano após a independência do país. Por sentir que «não tinha grande voz», preferia «andar à cata de notícias, reescrever as que chegavam de Lisboa e pensar em novos programas». «Era uma loucura com alguns, sobretudo os discos pedidos e os folhetins radiofónicos, mas também havia o desportivo Repórter em Campo, o Música na Praia, emitido em pleno areal e, claro, os de ritmos santomenses ou cabo-verdianos». Na altura, só a hora transmitida em português pela Rádio de Brazzaville, do Congo, fazia concorrência. De lá, chegavam os ecos da resistência ao colonialismo, por isso, durante aqueles minutos, os inspectores da PIDE corriam as ruas à «caça» de quem sintonizava a estação inimiga.

Quase sempre indiferentes à política, as roças laboravam à força dos braços «imigrantes» (sobretudo cabo-verdianos), mas também ao som da Emissora Nacional. Carlos Dias lembra-se bem que «a primeira coisa comprada pelos trabalhadores quando amealhavam algum dinheiro era precisamente um transístor, como se chamava aos rádios na altura». E assim, com vinte escudos de suor, as mornas, as coladeiras e o batuque podiam ganhar vida ali mesmo...

Corte à escovinha, totobola e livros proibidos

O pai de Carlos Dias, João Pedro Dias, tinha a única barbearia/livraria de São Tomé, que era ao mesmo tempo agência de totoloto e totobola, a primeira do Ultramar. Autêntica instituição pública da ilha, era conhecida por todos e até inspirou uma canção de sucesso do Conjunto Vitória. «A sorte tem a colheita/ Cada um tem a sua vez/ Na casa do Sr. João Pedro Dias/ É que saem mais prémios», dizia a letra da música «Totobola bua zugá», que em português dignifica «É bom jogar totobola».

Os homens passavam os dias nesta casa a ler o jornal ou a conversar, sempre junto a uma mesa com pé de galo que se tornou, mais tarde, peça do Museu de São Tomé. Um deles era Mário Soares. Deportado para a ilha em 1968, escolheu a barbearia como local de paragem obrigatória. Foi lá, inclusive, que o ex-Presidente da República soube que Salazar tinha caído da cadeira, como lembrou décadas depois: «Eu estava na barbearia, acompanhado como sempre de dois ou três pides, portugueses do continente, quando a Emissora Nacional deu a notícia. Sem conter a minha excitação gritei: um hematoma cerebral num homem de 80 anos?! Interrompi o corte de cabelo, saí imediatamente da loja e vim para a rua».

Carlos Dias lembra-se bem desses tempos e acrescenta que o pai era, provavelmente, um dos poucos livreiros do Império a vender edições proibidas. «Ele importava-os do Brasil, e alguns livros até seguiam depois para Portugal, mas curiosamente a PIDE nunca foi lá apreender nada».

Duas gerações, um amor comum

Carlos Dias regressou definitivamente a Portugal em 1976 e só voltou a São Tomé uma vez, anos depois, para o funeral de um amigo, mas a ilha ficou-lhe para sempre entranhada na alma. A tal ponto que vive ainda hoje (em Fernão Ferro) numa casa construída, de propósito, com a arquitectura típica daquelas paragens.

Ele é também o principal dinamizador dos «Almoços de terça-feira», que há mais de meio século reúnem na baixa lisboeta os antigos funcionários coloniais. Todas as semanas, religiosamente, o grupo junta-se no restaurante Inhaca para desfiar memórias e trocar recordações. Uma delas fala da aventura de um punhado de homens (Carlos Dias incluído) que decidiram subir ao ponto mais alto da ilha, o Pico de Gago Coutinho (2.024 metros). E entre eles nem faltava um padre que fez questão de lá rezar uma missa.

De tanto ouvir esta e outras histórias, um dos seus filhos, João Dias, só descansou quando ele próprio visitou a ilha e, claro, fez a mesma escalada que o pai, mas 40 anos depois. E desde então que também ele se deixou enfeitiçar pela magia daquelas paragens. «Entendes agora?» diz-lhe o pai: É ver para crer, como fez São Tomé...

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