A perplexidade

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Subitamente, o país mais poderoso do Ocidente sem bússola e das melhores universidades e riqueza de investigadores num mundo sem ordem entregou a sua direção a um improvável candidato vencedor sem qualquer experiência conhecida das duas maiores ameaças que enfrentamos, e que foram identificadas como a ordem e a desordem. O panorama dos desafios que acompanharam aquele divulgado conceito, ao mesmo tempo exigindo a não repetição de desastres passados como foram a última guerra e a Guerra Fria, e desafios presentes como são o terrorismo, a busca de novas energias e terras aráveis, reinventar o Estado, conter o número de Estados falhados, e o crescimento da multidão dos deserdados, tudo faça com que o encontro das duas ameaças nos faça viver numa forma nova de guerra fria, em que a União Europeia, depois das revelações "que um presidente não deve fazer", tem parte que pretendeu discreta e se tornou rastilho de agravamento. É nesta circunstância movediça que se encontra a Casa no Alto da Colina, conhecida por EUA, à qual, até ao dia 11 de setembro de 2001, se atribuía ser a potência invulnerável. Foi o dia do ataque às Torres Gémeas.

O presidente Bush celebrou um serviço religioso, que reuniu a variedade das confissões, pedindo inspiração ao "Senhor da Vida... que ampara todos os que morrem e todos os que choram". A inspiração parece, com a presente eleição e seus resultados, ainda não ter chegado, parecendo subsistir a conclusão de Emily Dickinson de que "It was too later for men, but early yet for God". É tempo para uma consistente e necessariamente inspirada resposta às ameaças que vão preenchendo a circunstância do globo em geral, do Ocidente em particular, e neste a infeliz parte que cabe à União Europeia. Tudo na data em que o mundo erudito celebra os quinhentos anos da Utopia de Thomas Morus, declarado protetor de parlamentares e governantes e santificado por João Paulo II, o qual aceitou a morte por fidelidade aos princípios, isto é, em defesa da autenticidade. Os factos teimam em afastar-se do Santo Protetor e da esperança por si declarada de que se encontrariam no céu, mais tarde, embora encontrassem motivos para o condenar em tribunal. A falha de estadistas com que o globalismo se tem defrontado desde o fim da Guerra Fria, e hoje já a ganhar o direito de ser chamada a primeira, não recebeu com a presente eleição sinais de a oração proferida pelo presidente em 11 de setembro de 2001 ter recebido já resposta favorável. Como escrevi, passou mais de uma década e o apelo feito à transcendência, juntando variadas maneiras de rezar com fé, a humildade de não ter projeto de política de Estado e pedir inspiração, não teve iluminação de resposta que levasse à formulação e aceitação do paradigma comum que Kung indaga com devoção e esperança, nem o direito internacional, património imaterial comum da humanidade, assumiu a natureza de diretiva efetiva para a paz. Quando alguns governantes conscientes das divisões que se acentuam pregam a necessidade de pontes que conciliem as diferenças, o que mais se ouviu foi o inconcebível projeto de construir um muro, o desafeto às minorias mais desamparadas dos deserdados da terra que serão impedidos de engrossar os cerca de quarenta milhões de emigrantes, se não erro muito no número, que ainda no século XIX enriqueceram como povoadores o território que em tempos pertencera aos nativos, cuja certidão de óbito foi lavrada por Tocqueville, quando a pequena parcela sobrevivente de iroqueses foi perguntar ao governo dos EUA se também precisavam de morrer.

O Ocidente é hoje uma nau em perigo, com a imagem a referir cada um dos seus países, alguns abrigando povos com história notável, sem perder o sentido da unidade cultural, e analistas que publicam estudos valiosos averiguando as causas da falência das nações, uma categoria para a qual o Ocidente, há pouco tempo imperial, parecia decidido a não aceitar a definição, enfrentando os efeitos humanos e materiais da II Guerra Mundial, e apoiado na doutrina que os EUA contribuíram para inscrever na Carta da ONU.

A experiência do século, com precedentes antigos, parece obrigar a salientar sempre, entre as causas do insucesso, a existência de maus governos a exercer o poder. Os que utilizam a imagem da nau, o que facilmente ocorre aos povos marítimos, sabem que é sempre necessário um timoneiro. O resultado das eleições dos EUA, aos quais a estratégia do saber e a estratégia da segurança, da defesa e da igualdade tanto devem, leva-nos finalmente a saber que, quando Obama proclamou "somos todos americanos", não estava alheio à necessidade de mudar o apelo tradicional à proteção divina, mas a reconhecer que o país estava a correr o risco da divisão interna e também à procura de saber quando e de que modo encontraria remédio para o divisionismo que finalmente o resultado das eleições aprofundou. Infelizmente, não são apenas os EUA que veem abalar a Casa no Alto da Colina, que acreditavam habitar e cuja imagem o globalismo em crise julgava corresponder à verdade.

Os votantes, se forem tenazes em seguir a ação do escolhido, são responsáveis que agravam o conjunto de riscos e ameaças que estão identificados, salientando-se a ignorância da real estrutura do globalismo. Lamentavelmente, não foi atendida a advertência, feita a tempo por Francis Fukuyama, de que "a incapacidade de governar com eficácia estende-se aos Estados Unidos". Até hoje, em situações semelhantes, os povos tiveram alguma esperança na "Graça de Estado". Os indícios são de que está excessivamente assoberbada de pedidos.

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