Quando as Nações Unidas foram organizadas para conseguir um ordenamento mundial que assegurasse a paz, não ignorou que abria o diálogo construtivo, e sem precedente quanto à liberdade da palavra, entre todas as áreas culturais do mundo. Por cinco vezes, desde a fundação, reuniu a Assembleia Geral para ouvir a palavra do Papa, sendo Paulo VI quem deixou ali a mensagem de que "o desenvolvimento sustentado" seria o novo nome dessa procurada paz. Se cada um deles teve sempre presente a situação global, que para o Santo João Paulo II, durante o seu pontificado, foi sempre a esperança do fim da Guerra Fria, sem o que continuaríamos a evolucionar para a catástrofe; por seu lado, o Papa Francisco, tendo tornado claro que, como acentuou o cardeal africano Robert Sarah, o quadro institucional de qualquer reforma interior é importante, por isso decidiu que a Cúria realizasse, fora de Roma e longe das atividades quotidianas, um longo retiro espiritual durante a Quaresma também, como acentuou o ilustre franciscano Carreira das Neves, dando primazia à pessoa. Iniciou uma como que revolução nas suas relações com judeus, islâmicos, agnósticos, ateus. Por isso, a sua presença em Fátima, tal como na linha da sua intervenção na ONU, é de prever que irá dirigir-se ao desafio mundial à paz, num local de enorme significado católico, mas sem distinção, quanto à fé, de pregar o bem do "mundo único", e da "terra casa comum do género humano". Lembraremos como o grande, e martirizado, secre-táriogeral da ONU que foi Hammarskjöld, organizou na sede uma sala de meditação para todas as confissões. Por isso, esta visita do Papa Francisco certamente não se destinará apenas a responder à fé dos católicos, mas sim de convocar todos os responsáveis para a necessidade de acompanhar os esforços autênticos para que a Terra seja realmente a casa comum dos homens. Foi já aquilo que fez no notável discurso do 1.º de Janeiro de 2016, no XLIX Dia Mundial da Paz, quando chamou todos a vencer "a indiferença e conquistar a paz". Logo no primeiro parágrafo escreveu estas palavras: "Com esta minha profunda convicção, quero, no início do novo ano, formular votos de paz e bênçãos abundantes, sob o signo da esperança, para o futuro de cada homem e de cada mulher, de cada família, povo e nação do mundo, e também dos chefes de Estado e de governo, e dos responsáveis das religiões." Não se esqueceu do desenvolvimento sustentado e do valor que lhe atribuiu Paulo VI, ao felicitar a ONU pela Agenda 2030 para esse projeto. Como sempre o seu apelo é global, sem exclusão ou distinção de crenças, etnias ou culturas. Trata-se de apelar sempre aos valores de que participa toda a humanidade, e que nesta data de "crença no mercado" não pode deixar de ser lembrada, com vigor, e empenho, a economia social, que é um elo da solidariedade exigida pela Terra "casa comum dos homens"..A economia social de que as Misericórdias são uma das criações portuguesas de mais-valia moral, e de todas as inspiradas pelo mesmo espírito. Como ele disse no seu discurso, citando a Guadium et Spes, dado que "as alegrias e esperanças, as tristezas e angústias dos homens de hoje, sobretudo dos pobres e de todos aqueles que sofrem, são também as alegrias e as esperanças, as tristezas e angústias dos discípulos de Cristo", Fátima vai ser, mais uma vez, um lugar de apelo à comunhão de todos os homens, seja qual for a religião, a cultura, a etnia, para a participação na esperança da salvaguarda da dignidade de todos e de cada um. E por isso não parece ser errado entender que vem fortalecer, nesta peregrinação, o espírito com que a ONU o quis ouvir no lugar onde todas as áreas culturais, étnicas e religiosas do mundo falam hoje, pela primeira vez, desde a sua fundação, em liberdade, proclamando a sua visão da preferida ordem mundial..Muita da debilidade que afeta a ONU parece resultar de que os textos são apenas de origem ocidental, e as leituras plurais dos descolonizados exigem mudança, e, como as cedências são relutantes, cresce o conflito entre os que querem manter o sentido original dos textos, não vencendo a negação dos que os contestam. A maior importância que teve, entre os acordos dos membros da ONU, foi o que, por cinco vezes, os levou a querer ouvir a palavra do Papa, o que apoia a insistência em desenvolver a ideia do sacrificado Hammarskjöld, criando finalmente na ONU um Conselho das Igrejas, ao serviço da palavra, e da tradição de Assis, que seja um dos eixos da roda do Conselho de Segurança, que bem necessita da chamada revolução imparável.