A pequena Ayse já sonha com casa para brincar com irmã que vai nascer

Burak Aydin salvou a mulher e a filha e também os pais, mas perdeu nove familiares no sismo de 6 de fevereiro. Farouk Ölcücü ficou viúvo e com dois rapazes, pois as suas duas meninas morreram. Na cidade dos contentores, em Nurdagi, tragédia e esperança misturam-se.
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Burak Aydin convida a ver o interior de um dos contentores metálicos onde vive a família há mais de dois meses. A televisão ligada e o sofá verde protegido por uma manta vermelha ajudam a dar um ar de normalidade a uma casa que não é uma verdadeira casa mas que substituiu para já aquela que foi destruída pelo sismo de 6 de fevereiro que assolou o sul da Turquia e o Norte da Síria. Aqui em Nurdagi, onde está instalada uma Kontayner Kemp, "cidade dos contentores" em turco, foram mais de dois mil os mortos e se as torres eólicas no alto da serrania vizinha aguentaram-se de pé, o mesmo não se pode dizer de centenas de edifícios, alguns já demolidos, enquanto outros, a parecer que foram bombardeados, ainda se aguentam de pé mas vão também ser arrasados por motivos de segurança. Em alguns prédios, nos andares que ficaram sem paredes, dá de fora para ver os móveis.

"Estava a dormir quando tudo começou a abanar. Uma parede caiu. De repente, o chão começou a ceder. Fugi com a minha mulher e a minha filha. Também consegui salvar os meus pais, graças a Deus. Mas os meus avós morreram, uma tia também, e sobrinhos", relembra Burak Aydin, contando com os dedos das mãos à medida que vai dizendo os nomes dos mortos. Foram nove. E mesmo quando se sentiu mais a salvo - o que é relativo, pois ao sismo de magnitude 7.8 às 4 da manhã seguiram-se outros - enfrentou dias de desespero por não saber quem estava vivo ou morto, por não saber onde iria passar a noite. Era o momento em Nurdagi em que começavam a chegar os primeiros socorros, incluindo as equipas de resgate que foram tirando pessoas de debaixo dos escombros. Algumas foram encontradas vivas, algumas vivas mas muito feridas, e a maioria estava morta. Só na Turquia foram 50 mil mortos, boa parte aqui na província de Gaziantep. Nesta cidade, pelo menos dois mil. E também mais de cem mil feridos em várias regiões turcas.

Uma menina dá a mão a Burak Aydin. É Aise, a filha. Ao lado dele está a mulher, Husre, grávida. "É outra menina. Uma benção", diz com um sorriso Husre, vestida com uma túnica em tons de negro e cinza e com o lenço a cobrir o cabelo, como fazem muitas mulheres nesta zona conservadora da Turquia, onde o islão está mais presente na vida das pessoas do que na cosmopolita Istambul ou em Ancara, a capital. O casal é jovem e apesar da tragédia que viveu diz acreditar que voltará a ter uma casa. Elogiam as autoridades, o modo como está organizada a "cidade dos contentores", a rapidez com que foi construída para tirar da rua os desalojados pelos sismos, mas sonham reconstruir depressa a vida para que a bebé que vai nascer "saiba o que é uma casa, com o seu quartinho, com as suas bonecas, onde possa brincar com a irmã", afirma Burak Aydin, agora com a voz a tremer.

Este homem de 27 anos, cabelo alourado e barba de três dias também em tons de louro, abraça a mãe, que acaba de chegar. Beija-a na testa. Também se aproxima o pai. Burak Aydin chama-o para tirarem uma foto da família. Põe um braço nas costas do pai, enquanto no outro segura ao colo Ayse. Hoje são cinco na fotografia, em breve serão seis. Para já vão ter de se contentar com dois contentores, e, fico a saber, o do sofá verde à porta do qual decorre toda a conversa é o dos pais de Burak Aydin.

"Cada família tem direito a um contentor. Se forem muitos, podem ter dois. Tentamos sempre que fiquem juntos", explica um responsável da AFAD, a agência de proteção civil turca. Construída em contra-relógio, pois os sismos aconteceram no inverno, com muita chuva, temporal até, e temperaturas que à noite eram bem abaixo de zero, a cidade dos contentores em Nurdagi conta com 1700 destas estruturas metálicas. Todos têm casa de banho, também uma cozinha, para as famílias terem uma vida o mais normal possível. "Fornecemos todos os dias alimentos a quem quer cozinhar em casa, mas também temos refeitórios abertos para quem prefere. Tudo gratuito", acrescenta o funcionário da AFAD.

Um dos dramas de muitos dos habitantes atingidos pelos sismos é que não só perderam a casa como o emprego. Os que tinham lojas em prédios que ruíram - e a cidade está cheia de escombros ainda e de edifícios semidestruídos à espera da demolição - perderam o investimento de uma vida. Para outros, foram os sítios onde trabalhavam que deixaram de existir. Burak Aydin, o pai da pequena Ayse, nesse campo tem sorte: trabalha para o município. Um dos edifícios camarários que aguentou o sismo fica, aliás ,mesmo em frente à entrada da cidade dos contentores, e está decorado com uma enorme bandeira turca e uma faixa com a fotografia do presidente Recep Erdogan, que governa o país há duas décadas, e outra com a imagem de Mustafa Kemal Ataturk, fundador da República da Turquia em 1923, sobre as cinzas do Império Otomano.

Para lidar com os traumas vários, o governo turco instalou gabinetes de apoio psicológico. "Há pessoas que recusam falar do que aconteceu na madrugada de 6 de fevereiro. Morreram familiares, por vezes filhos, e recusam aceitar. É um luto muito difícil", explica Emre Odzil, que na cidade dos contentores vai ajudando como pode. "Estamos agora a dar alguma prioridade às crianças. Para ultrapassarem os traumas. Muitas atividades e terapia de grupo", acrescenta.

É sábado e só por isso não há aulas - o seu recomeço foi quase imediato nas zonas afetadas -, o que explica a quantidade de crianças que se veem na cidade dos contentores, em especial numa espécie de praça onde estão montados dois palcos. Um deles tem uma pequena multidão à volta, para assistir a um espectáculo de fantoches, com um só artista a mudar constantemente de boneco e sempre com uma voz diferente para cada fantoche. Vinda de uma mesquita nas proximidades, a voz do muezzin a chamar para a oração da tarde (a asr, quarta do dia para os muçulmanos mais cumpridores) sobrepõe-se à do homem dos fantoches, que ainda insiste, mas depressa desiste de competir com o cântico religioso. São um ou dois minutos. E ninguém arreda pé.

"É muito importante este divertimento para as crianças. Fazê-las esquecer o medo. Fazê-las esquecer que morreu gente da família, por vezes um irmão ou irmã, ou os avós ou até o pai ou a mãe. Mas provavelmente até vão ultrapassar os traumas com mais facilidade do que os adultos", explica o psicólogo Emre Ozdil. "Há até pessoas aqui no campo em que a casa se salvou mas têm medo de ir para lá e ficarem soterradas por novo sismo", acrescenta.

Farouk Ölçücü, agricultor de 46 anos, perdeu a mulher e as duas filhas no sismo. Sobreviveram os dois filhos mais velhos. Está sentado com outros familiares numa cadeira à porta do contentor cinzento onde vive há dois meses. São várias cadeiras de plástico colocadas em redor de duas mesas. Oferece chá acabado de fazer e umas sementes de abóbora. E conta o que passou: "Acordei e a casa estava a ruir. Foi tudo num instante. Sobrevivi, mas a minha mulher não. As minhas filhas também morreram. Os rapazes não estavam e por isso estão vivos. É um sofrimento imenso. Tento ter forças. A família é o meu apoio".

Enquanto um tradutor turco vai relatando o que diz Farouk Ölçücü, a cunhada traz biber salcasi para oferecer, são uns pastéis de massa picante. A tradicional hospitalidade turca mantém-se apesar da tragédia e não faltou quem, como a família de Farouk Ölçucu, agradeça aos jornalistas estrangeiros o envio de equipas de resgate. A enviada por Portugal, e que retirou uma criança dos escombros, esteve na província de Hatay, ainda mais destruída do que esta de Gaziantep.

AFAD, Crescente Vermelho, várias fundações e ONGs têm trabalhado para minimizar as dificuldades quotidianas das vítimas do sismo, mas agora há também o desafio da reconstrução. O presidente Recep Erdogan veio de novo à região e desta vez para uma muito simbólica entrega de 14 casas construídas num tempo recorde de 50 dias. A cerimónia foi em Belpinar, não longe de Nurdagi, e Recep Erdogan elogiou a rapidez na construção das casas, oferecida por uma empresa que pede anonimato, e prometeu que mais de meio milhão de habitações serão construídas nas zonas afetadas pelos sismos. Em ambiente de comício - não esquecer que esta é uma região que vota tradicionalmente no AKP, o partido islamo-conservador - os vivas ao presidente foram constantes. Antes da chegada de Recep Erdogan, favorito nas presidenciais de 14 de maio, a presidente da câmara de Gaziantep, Fatma Sahin, ela própria eleita pelo AKP e antiga ministra da Família, dizia aos jornalistas estrangeiros que "estas casas construídas num tempo recorde são um exemplo da nossa determinação. Foram construídas em menos de 75 dias e entregues às pessoas. Vamos continuar a construir. Estas são para mulheres a quem estamos também a ajudar a dedicarem-se à agricultura biológica para refazerem a vida".

O presidente turco, depois de lembrar os mais de 50 mil mortos no país em consequência do sismo de fevereiro, afirmou à multidão presente em Belpinar que "em linha com as nossas determinações, estamos a construir 650 mil novas habitações na zona sísmica. Planeamos pôr as nossas cidades de pé novamente, entregando 319 mil dessas habitações no espaço de um ano". Recep Erdogan acrescentou que durante as suas visitas recentes à zona do terremoto realizaram-se cerimónias para novas residências em todas as cidades: "Iniciamos o processo de construção de mais de 105 mil casas até agora. Lançámos fundações de quase metade delas", disse o presidente [que depois interrompeu a campanha uns dias devido a uma gastroentrite].

Nas imediações das novas casas a ser entregues, num cartaz do AKP podia ler-se "Dogru zaman, dogru adam". Traduzido quer dizer "No momento certo, o homem certo". Estamos a duas semanas das eleições e o processo - mérito seja reconhecido ao Estado turco - não esqueceu de garantir o direito de voto daqueles que nos próximos tempos vão viver em tendas ou contentores. Qual o homem certo para o momento, saberemos dia 14 de maio ou duas semanas depois, se houver necessidade de segunda volta.

O DN viajou a convite da Embaixada da Turquia

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