A outra música dos cegos de Lisboa

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Ainda se pode escrever a palavra "ceguinho" nos jornais? Não é preciso usar antes "invisual"? Então é assim, como se diz agora: ainda sou do tempo em que os ceguinhos andavam a tocar concertina pelas ruas de Lisboa, com uma caixa de esmolas pendurada ao pescoço e uma bengala estriada de branco e vermelho.

Às vezes o cego era conduzido pela mulher, que lhe servia de porta-voz no pedido de esmola e também cantava ou o acompanhava noutro instrumento. Outras ve-zes, eram três: o cego com a concertina, outro sujeito ou uma rapariga a tocar ferrinhos e um terceiro, geralmente um miúdo, que estendia a mão à caridade.

Estas imagens tão fami-liares até bastantes anos depois do 25 de Abril passaram--me pela cabeça ontem de manhã, depois de ter visto finalmente uma das personagens mais conhecidas do Metro de Lisboa, o "ceguinho rapper".

É um rapaz magro que anda de composição em composição entoando uma ladainha em estilo rap ("Ora eu agradeço a alguém /que tenha a bondade /ou a possibilidade/de me auxiliar!"), usando ao mesmo tempo a caixa de esmolas como caixa de ritmos e batendo com a bengala nos varões e nos bancos das composições pa-ra acentuar o efeito rítmico.

À porta do Pingo Doce do meu bairro senta-se também de vez em quando um outro cego, este mais idoso e que traz com ele um rádio portátil em que põe a tocar fados de Amália ou música... de concertina.

Quase 36 anos depois do 25 de Abril, a mendicidade pública continua a existir. Mas pelo menos já recorre à tecnologia e adopta os sons da moda.

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