Deixara Lisboa expectante! Éramos um pequeno grupo de correspondentes da imprensa estrangeira. Da estação de comboio de Santa Apolónia ao Entroncamento - cerca de uma hora de viagem -, levava comigo a ansiedade de uma nova descoberta, em dois dias, para lá dos rituais das celebrações do Centenário das Aparições da Cova da Iria, neste Portugal diverso procurado e saciado por turistas e católicos de várias latitudes e origens, italianos inclusive, da terra de onde vem o Sumo Pontífice, o Papa Francisco de Bergoglio..Um minibus ambientado com as músicas em voga na RFM nos levara ao destino programado pela região centro de Portugal. E pouco depois de outra hora de estrada, sem mais delongas, começámos o dia na FARUP, uma unidade fabril fundada em 1962, que guarda no seu interior a história de um dos locais de produções artesanais de artigos religiosos que alimentam a fé, e não só a dos portugueses. Dotada de visão para o negócio, Purificação Reis conduzira-nos pela fábrica com a sensatez de uma dirigente. Passo a passo, sala a sala, fui desvendando o segredo da dedicação daquelas mulheres que, religiosamente, torneavam à mão centenas de imagens de Nossa Senhora de Fátima de vários tamanhos e proporções..Estávamos a poucas semanas da anunciada visita apostólica. Talvez isso também explique a entrega das operárias que, ante a presença de jornalistas, manuseavam as peças com sacerdócio zelando sempre pela perfeição. A visita do Papa foi a cereja no cimo do bolo", remata a nossa anfitriã, dando conta do acréscimo na procura dos artigos, apesar de, per si, não ser tão grande o impacto da viagem papal..A mesma dedicação ao trabalho encontrei na Manulena, fundada em 1968 por Manuel Pedro Custódio. Aqui são produzidas velas de culto e para iluminação. Atentos ao mercado nacional e externo, os donos da empresa familiar apostaram na inovação, não querendo ficar presos apenas à fé que gera o culto de Fátima. E a mesma devoção a esta fé está patente na Oficina da Consolata. Sentadas à volta da mesa, olhar fixo nas peças, as operárias envolvidas no processo de produção - cada uma, sua função - dão forma às imagens de Fátima..Foi com esse espírito que os missionários da congregação iniciaram o seu trabalho, em 1943, a pensar nos mais pobres. Disso nos dá conta Ilísio Assunção, administrador da instituição - que já trabalhou em Moçambique -, referindo adiante que os lucros da venda de todos os produtos ali comercializados revertem a favor de obras sociais em benefício das populações mais necessitadas, nomeadamente de África e América Latina..Assunção, que já acompanhara as visitas de João Paulo II e Bento XVI, fez questão de nos levar a conhecer a outra face da atividade dos missionários, que tem procurado mostrar aos visitantes. Fiquei impressionado com os recheios do Museu, no edifício ao lado do hotel, também sob a sua gestão. A pouca distância do Santuário, só quem percorrer aquelas salas do museu ficará a conhecer o rico espólio ali guardado, composto de inúmeras peças de arte africana, trazidas pelas missões que estiveram em vários países de África..Dos momentos ímpares e criativos na região centro, não resisto a referenciar a nata experiência no Cooking and Nature - Emotional Hotel - nascido há cinco anos. Por entre as serras de Aire e Candeeiros, embutido na natureza exuberante, a unidade hoteleira, situada a uns 20 quilómetros do Santuário, fascina qualquer um pelo seu cunho distinto e ambiente acolhedor..O facto de os chefes de cozinha nos terem desafiado a confecionar o nosso próprio almoço e a degustar o que de melhor se produz na região deixou-me elucidado para lá voltar..Por aquelas terras por onde terão passeado os três pastorinhos de Fátima - não muito distante da Cova da Iria -, fiquei a conhecer outro empreendimento turístico distinto: a Luz Houses. A pequena aldeia, inspirada na arquitetura tradicional dos séculos XIX e XX, é um lugar mítico no meio do bosque, cujo conceito, abraçado pelo casal Pedro Silva e Ana Houses, difere do aglomerado urbanístico que se construiu à volta do Santuário..A isto tudo, junta-se o "mistério" da sempre presente cozinha tradicional portuguesa, preservada por várias gerações. Quem vai a Fátima e redondezas encontra diversidade de oferta. Mas, a poucos minutos do centro, há lugares que fazem a diferença pela qualidade do serviço, a exemplo da Tia Alice ou O Crispim, que, a bom gosto, nos presenteou com um jantar de excelentes iguarias culinárias..Também neste aspeto, a região centro surpreende positivamente para quem anda à procura de novos sítios e novas experiências de lazer. Como nos disse Pedro Machado, diretor da entidade regional de turismo do centro, "Fátima é, naturalmente, uma das marcas mais importantes" da região e de Portugal. Afinal, por aqui, andando por estas terras outrora pastorais, ainda há muitas histórias para contar. Uma coisa é certa: em vésperas da visita papal, regressei a Lisboa fascinado por ter descoberto um pouco mais, saboreado e transportado dentro de mim esta outra Fátima invisível que extravasa a minha fé cristã.