"Estamos em 2023 e é incrível como até agora nunca ninguém tinha feito um filme sobre o desejo masculino nos westerns. Em O Poder do Cão, a sexualidade das personagens é ambígua mas nunca falam do desejo nem fazem amor. Eu quis fazer diferente num género que é sobretudo muito masculino e onde as mulheres estão de lado", começou por comentar Pedro Almodóvar logo após a sessão oficial deste western gay chamado Estranha Forma de Vida, aplaudido de pé na imponente sala Debussy. Almodóvar que reclama uma herança clássica e de distância dos westerns de Sergio Leone e de Brokeback Mountain, de Ang Lee - "este é como um western europeu"..Europeu e tão português. Como assim? Sim, está lá Estranha Forma de Vida, o fado de Amália, aqui cantado por Caetano Veloso, versão estupidamente bela e frágil e sem sotaque brasileiro. Depois, José Condessa em algumas cenas torna-se a versão jovem de um dos protagonistas, Pedro Pascal, provavelmente o ator da moda. Cenas com homoerotismo forte e muito vinho. Um momento alto para a carreira de um jovem ator que nesta altura está também nas bocas do mundo por ser a presença principal na série da Netflix, Rabo de Peixe..Almodóvar diz que o filme é bastante abstrato mas muito teatral, mas na verdade tudo soa a novo e cheio de duplicidades. Amor e sexualidade à maneia de Almodóvar numa história que conta o reencontro carnal de dois cowboys e prossegue num duelo. Ajustam-se contas de um caso do passado mas há questões de honra e dever. Um dos cowboys, interpretado por Ethan Hawke torna-se xerife, enquanto o outro, vem do México com deveres parentais - quer salvar um filho que é perseguido pela lei. Pelo meio, há uma pergunta que fica no ar: o que podem fazer dois homens que decidem viver juntos num rancho? A resposta chega apenas no fim de um filme que não dura meia-hora. Pelo meio, muitos olhares de amantes que não esqueceram o peso do passado. "Não me olhes assim", pede o americano e o cowboy mexicano interroga-se: "como queres que olhe!?"..Na conversa a seguir à sessão, Almodóvar de óculos escuros, conta também que nesta altura da vida não quer filmar cenas de sexo entre homens de forma explícita e com nudez, mesmo quando há um plano muito erótico onde se filma o traseiro de Pedro Pascal. "Há algo de cinema noir", diz, mas é preciso acrescentar que nesta nova lei do desejo surge um fator decisivo: coração, este desejo vem do fundo do coração. Almodóvar filma-o com uma elegância despudoradamente cromática. Talvez por isso, não é um olhar exclusivamente gay: esta história é um hino àquilo que é mais forte do que nós, o amor. A melodia do fado português, misturada com a partitura de Alberto Iglesias, ajuda nesse milagre..Os detratores vão resmungar que é um filme "product placement" da marca Saint Laurent, que no genérico surge como entidade produtora do filme. Saint Laurent presents, lê-se no genérico... Mas esse lado fashion não é sinónimo de sombra de produção de moda, é outra coisa - é Almodóvar ao detalhe, sobretudo nos tais jogos cromáticos que se querem cinéfilos e anacrónicos. Vaqueiros que sabem dobrar a roupa interior... Saint Laurent, precisamente...."O meu filme é diferente também porque nunca nenhum western mostrou homens a fazer uma cama", também disse o realizador na sala Debussy..Para já, esta "estranha de vida" não tem ainda data de estreia em Portugal, mas poderá ser para breve, quanto mais não seja porque tem distribuição mundial através da Sony..dnot@dn.pt