Provavelmente, na edição deste ano do Festival de Cannes, a secção Cannes Classics será, em número de títulos, a maior. Trata-se de um valor estatístico? Também, sem dúvida: a importância dos filmes que marcam a história do cinema, agora em versões restauradas, tem vindo a ser reforçada pelas edições de clássicos em DVD (infelizmente pouco valorizadas por alguns agentes do mercado português) e também pela necessidade de alimentar a oferta das plataformas de "streaming" (quando estas investem, seriamente, em tal possibilidade)..Através da maior ou menor imaginação dos circuitos comerciais dos filmes, o que está em jogo é o mais básico valor da cinefilia. A saber: o culto da memória. Entenda-se: não a mera agitação nostálgica em torno dos filmes "antigos", mas uma genuína procura de momentos, tendências e referências que nos ajudam a compreender a densidade da história do cinema e, não poucas vezes, as formas de cumplicidade das mais enigmáticas "relíquias" com as convulsões do presente..Falecido a 13 de setembro do ano passado, Jean-Luc Godard é desta vez o destaque obrigatório, aliás através de uma "trilogia" reveladora dos ziguezagues temporais que Cannes tem sabido propor. Assim, iremos conhecer 20 minutos de um projeto que Godard já não pôde concluir: são imagens (e sons) de um filme que teria o título de Drôles de Guerres e que o festival define como o "trailer do filme que nunca existirá". Depois, entre as cópias restauradas, surgirá O Desprezo (1963), porventura o título mais popular de toda a filmografia de Godard, com o par Brigitte Bardot/Michel Piccoli. Finalmente, será revelado o documentário Godard par Godard, assinado por Florence Platarets, que se anuncia como um "autorretrato" através de materiais de arquivo..Outro nome nuclear da Nouvelle Vague, Jacques Rivette, será recordado através de O Amor Louco (1969), uma das longas-metragens realmente muito longas da sua obra (mais de quatro horas...) e um filme charneira na ressaca emocional de Maio 68. Na lista dos filmes restaurados encontramos ainda, por exemplo, Spellbound/A Casa Encantada (1945), de Alfred Hitchcock, Classe Tout Risques/Contra Todos os Riscos (1960), de Claude Sautet, Mississipi Blues (1983), de Bertrand Tavernier e Robert Parrish, e Hombre de le Esquina Rosada (1962), de René Mujica, raridade absoluta da produção da Argentina com argumento assinado por Jorge-Luis Borges..Entre os documentários produzidos recentemente, haverá ainda 100 Years of Warner Bros., de Leslie Iwerks, sobre um dos estúdios mais populares no imaginário de Hollywood, Nelson Pereira dos Santos - Vida de Cinema, de Aida Marques e Ivelise Ferreira, recordando um mestre da cinematografia brasileira, e Liv Ullmann - A Road Less Travelled, de Dheeraj Akolkar, testemunho na primeira pessoa de uma das atrizes emblemáticas do universo de Ingmar Bergman, também com uma importante carreira como realizadora - Liv Ullmann, que presidiu ao júri de Cannes de 2001, estará presente na respetiva projeção..dnot@dn.pt