Quando, há quatro semanas, acabei por anunciar que não seria candidato à liderança do PSD, evitando uma fragmentação ainda maior de candidaturas, considerei que o interesse nacional e o interesse do meu partido prevaleciam sobre o meu próprio. Mas não abdiquei da minha responsabilidade de continuar a formular propostas capazes de enfrentar os constrangimentos estruturais que travam o crescimento sustentável de Portugal há mais de duas décadas..Aliás, é conhecido o meu empenhamento em, com muitos outros, pensar e propor políticas que transcendem as ultrapassadas fronteiras partidárias e em valorizar mais as policies do que a politics. Essa é a razão pela qual, há dez anos, coincidindo com o arranque do resgate económico-financeiro, fundei, com quase 500 pessoas de vários quadrantes políticos, o think tank Plataforma para o Crescimento Sustentável (PCS). À época não nos resignámos com a querela artificial austeridade-crescimento e lançámos um amplo movimento cívico em torno da nossa "visão pós-troika", desenhando e debatendo 511 recomendações que permitissem libertar o potencial de crescimento sustentável de Portugal. Nestes dez anos, densificámos propostas e avançámos com investigação nos novos desafios societais (como a demografia, a descarbonização, a digitalização, o futuro do trabalho e as qualificações). Mais recentemente, voltei a "ir a jogo" com propostas no âmbito do meu livro Direito ao Futuro, que procura enunciar respostas para o facto de estarmos a viver a crédito do planeta e dos nossos filhos..Confesso, pois, a minha perplexidade com aquilo a que venho assistindo nos últimos dias, tanto no meu partido como no sistema partidário em geral. No meio da maior crise global dos últimos 70 anos (sim, nem a pandemia terminou nem os seus efeitos sociais e económicos foram mais do que temporariamente amortecidos) e perante obstáculos estruturais que nos afetam há décadas - de que são exemplo o crescimento económico medíocre, a elevada dívida pública, o envelhecimento da população, a insustentabilidade do sistema de pensões, a baixa produtividade, a lentidão na justiça e o agravamento das desigualdades sociais -, é confrangedor o nível do debate político a que se assiste em véspera de eleições legislativas. Do lado dos partidos que suportaram o atual governo, assiste-se a um artificial exercício de passa-culpas, sem que surja um impulso reformista ou transformador. O CDS joga a sua sobrevivência. E, no PSD, ao fim de quatro semanas de campanha interna, ninguém foi ainda capaz de apresentar uma visão e um programa de reformas políticas. A discussão andou centrada, para deleite do PS, na troca de acusações pessoais, na tentativa de condicionamento da decisão do Presidente da República e numa interminável querela sobre a data das eleições internas. As dez horas consumidas no último Conselho Nacional do PSD, para voltar a deliberar sobre datas e procedimentos, ficarão para a história como um dos momentos de maior divórcio do PSD com a realidade. É mau de mais para ser verdade. Ainda aguardarei mais alguns dias para decidir se, como era minha intenção, acabarei por apoiar publicamente algum dos candidatos. Ao dia de hoje, não o faria. Faço, pois, um apelo ao sentido estratégico e ao espírito reformista por parte de Rui Rio e de Paulo Rangel..Do meu lado, farei aquilo que está ao meu alcance no plano cívico: nas próximas semanas publicarei aqui, até às eleições legislativas, um contributo em torno de dez missões que considero essenciais para reconquistar o nosso direito ao futuro - modernizar o Estado; aprofundar a democracia e a cidadania; combater as desigualdades sociais; assegurar a resiliência e a sustentabilidade territorial; qualificar e digitalizar para uma sociedade 4.0; enfrentar a crise demográfica; descarbonizar a economia e fomentar o crescimento verde-azul; reforçar a competitividade e a produtividade; reduzir a dívida e promover uma fiscalidade mais inteligente; aprofundar a cooperação internacional e o projeto europeu..Militante do PSD. Presidente da Plataforma para o Crescimento Sustentável