Existe um bairro dos Anjos diurno, do qual tenho falado, e outro noturno, velado e esquivo, que aos poucos vou descobrindo e ainda me vai espantando..As ruas são as mesmas, também as casas, as lojas e os cafés, mas nada é exatamente igual. Há luzes azuladas para lá das grades de ferro, fragmentos de música e línguas que não entendo; há gente que se reúne em pequenos grupos, fumam, bebem, talvez se droguem, os olhares franzidos mantêm a distância e protegem os segredos; há casais que bailam tango numa cave iluminada; há uma porta entreaberta com um letreiro em cirílico, não sei se é uma igreja, um salão de bilhar ou um clube de combate; do outro lado da avenida há homens de bigode à porta de um sexy club com um néon avermelhado, imagino a miséria em trajes menores, o desejo apagado por whiskies marados. Há gente deitada sob as arcadas e um homem de fato que passeia o cão, duas prostitutas caminham lado a lado e acenam aos polícias do Banco de Portugal..Através da janela de um rés-do-chão vê-se um ecrã aceso e um homem que escreve para contar..Escritor