A negociação

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Bater o pé deve ter sido das expressões mais infelizes que se usaram em Portugal nos últimos anos para designar aquilo que, na altura, a oposição inteira acusava Passos Coelho de não fazer à troika: opor-se às medidas mais excessivas e contraproducentes e propor outro caminho económico menos violento. A expressão era infeliz porque prolongava o estado de infantilização de Portugal perante os credores, em vez de recolocar o problema onde ele deveria ter estado desde o início: no quadro de uma negociação política, em que embora uma das partes estivesse muito inferiorizada pelas circunstâncias penosas das suas finanças públicas, não perdera a soberania e a vontade de corrigir os problemas, encontrando uma solução viável e não apenas ditada de fora, como aconteceu. Agora que António Costa é primeiro-ministro, chegou o momento de pôr em prática o que na altura ele achava possível. Mais do que qualquer outra pessoa, o primeiro-ministro sabe que este não é um caminho livre de riscos. É bem perigoso. Não se trata apenas de bater o pé. Como qualquer negociação, haverá um princípio, um meio e um fim. Entretanto, sairão notícias dramáticas a anunciar que está tudo perdido. Serão talvez até feitos ultimatos e ameaças para condicionar as negociações, mas é bom que se tenha a noção de que tudo isto faz parte do processo. Se fosse fácil, se o Orçamento para 2016 dependesse apenas do governo português, a história seria outra. É conveniente lembrar que António Costa tinha um plano A (défice público de 2,8% do PIB), já mudou para o plano B (2,6%) e é provável que tenha de dar mais uma facada nas contas públicas - e nas promessas - para chegar a um acordo com Bruxelas (plano C). O quanto vai ter de ceder determinará o êxito da operação, mas se for capaz de fechar o assunto sem pôr em causa o essencial do programa político que o sustenta no Parlamento, isto é, conseguir um pouco menos de austeridade, não se poderá falar de uma derrota, mas sim do desfecho natural de um acordo complexo. Coisa diferente é saber se as escolhas de António Costa vão dar bons resultados a prazo. Isso não é Bruxelas que sabe. Só o tempo dirá se estas opções fazem o país crescer, se a desigualdade diminui, se as dívidas públicas e privadas caem, se os impostos baixam, se os bancos deixam de andar aflitos, se o Estado se torna mais sustentável e se pelo caminho os mercados não perdem a paciência.

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