A mulher pequena de voz grande que cantou amores e tragédias

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Amores e histórias de desencanto e tragédia recordam uma vida

Quando, em 1961, Edith Piaf deu palavras suas a uma melodia de Charles Dumont, deixou claro como a água toda uma história de vida feita de amores furiosos e desencantados. Quando os amantes escutarem esta canção / é certo que chorarão (in Les Amants)... De facto, poucas obras, como a de Piaf, traduzem tão trágica visão do amor. E porquê? Porque sabia do que cantava.

Celebrada por uma nação que em si aprendeu a ver um ícone, ainda hoje venerado, Edith Piaf nasceu, contudo, no lado "errado" da cidade que mais tarde sairia de casa para lhe prestar um último adeus, naquela que Charles Aznavour descreveu como a mais sentida e participada manifestação colectiva que viu desde o dia da libertação depois da ocupação alemã. A sua música traduzia, contudo, memórias vivas de ruelas secundárias, noites longas de bebida e fumo e, sobretudo, amores perdidos e trágicos. Nos seus amores, muitos deles nascidos junto de jovens talentos que em si encontraram rampa de lançamento para as respectivas carreiras, identifica-se claramente o antes e o depois de Piaf. Yves Montand, Charles Aznavour, Jacques Pills, Théo Sarapo ou o boxeur Marcel Cerdan (morto em acidente de aviação sobre os Açores, como se recorda em caixa ao lado), são episódios fundamentais numa história de vida em que os feitos na música em tudo se relacionam com desgostos pessoais. Neles, de facto, o sal que fez daquela voz e suas palavras uma tão rara expressão desses fados.

Lendas e mitos

São muitas as lendas que se contam sobre Edith Piaf, tantas quanto as que as biografias têm registado em papel. Do nascimento, a 19 de Dezembro de 1915, diz-se que teve lugar numa rua de Paris, sob o olhar de dois polícias (história à qual há quem contraponha um episódio menos espectacular, numa sala do hospital de Tenon, que servia o bairro de Belleville). O nome, Edith, deveu-o à enfermeira inglesa Edith Cavell, executada por ter ajudado soldados franceses a fugir dos alemães, em plena I Guerra Mundial. A sua mãe, de ascendência italiana, cantava num café sob o nome artístico Line Marsa. O pai, Louis-Alphonse, era um acrobata de rua com um passado vivido em palcos de teatro.

Abandonada pelos pais, viveu primeiro com a avó materna. Resgatada pelo pai, pouco conheceu de vida doméstica. E quando Louis-Alphonse se alistou para lutar pela França, deu por si na casa da avó paterna, um bordel na Normandia (que teria impacte marcante na sua formação individual e artística). Bem depois de terminada a guerra, com o pai regressou às ruas, onde começou a cantar. Conta-se que foi entre Pigalle e Ménilmontant que conheceu Louis Dupont, um moço de entregas. E o seu primeiro romance.

O pequeno pardal

Edith Giovanna Gassion (era esse o seu nome real) somava já seis anos de cantares de rua quando se cruzou coma figura certa na hora certa. Ele chamava-se Louis Leplée. E era dono de um clube nocturno em voga, por onde passavam belas vozes e figuras influentes. Renitente, a medo, acedeu em cantar. E quando a sala se calou para a escutar pela primeira vez, já o fez sob o nome que Louis lhe dera, sugerido pela força da voz e delicadeza da estatura de apenas um metro e 47 de altura: "la môme piaf" (ou seja, "o pequeno pardal").

Cinco anos depois, Piaf (como era então já conhecida) circulava entre os grandes do seu tempo. Jean Cocteu escrevia uma peça de teatro pensando-a como protagonista. O actor Maurice Chevalier e o poeta Jacques Borgeat contavam-se entre os seus amigos. Em Paris conheceu, então, Yves Montand, que integrou no seu espectáculo e foi seu amante.

Durante a ocupação nazi, Piaf era presença regular num dos clubes onde os oficiais alemães escutavam as vozes de Paris. Era invariavelmente aplaudida. Chegou mesmo a ser usada numa campanha de propaganda, fazendo-se fotografar junto de prisioneiros de guerra. As fotos, entregou-as à Resistência, que rapidamente falsificou 150 passaportes. De regresso ao campo de concentração, Edith Piaf passou os passaportes, tendo depois alguns dos cativos conseguido fugir. Este relacionamento com a Resistência é hoje celebrado em muitos dos textos biográficos sobre a cantora.

Depois da guerra, a projecção internacional da sua voz levou-a a palcos que nunca antes imaginara pisar. Além de inevtáveis passagens regulares pelop Olympia de Paris, passou pelo Carnegie Hall (Nova Iorque), por programas de televisão de grande audiência. E, numa ocasião, levou consigo Charles Aznavour, outro novo amante que ajudou a lançar.

Mas apesar do fulgor com que a carreira florescia em feitos e popularidade, a vida íntima de Piaf era o calvário de sempre. Apesar dos vários amantes-artistas, só um acendeu de facto o seu amor profundo. Foi ele Marcel Cerdan, cuja trágica morte em 1949 marcou a já sombria cantora.

Três anos depois casou com Jacques Pills, um cantor, de quem se divorciou em 1956. O segundo (e último) casamento, juntou-a ao bem mais jovem Théo Sarapo, um cabeleireiro de 26 anos que entretanto se reinventou como actor e cantor. Foi ele quem a acompanhou na etapa final de vida, dedicando-lhe toda a atenção até ao fim, que chegou a 11 de Outubro de 1963.

Vítima de cancro, Edith Piaf tinha apenas 47 anos quando morreu, mas a aparência de uma idosa maltratada pela vida. Dependente da morfina desde um acidente de viação anos antes, alcoólica, somou episódios pouco católicos numa vida, contudo de excepção. Na hora da morte, o bispo de Paris, justificando-se com o estilo de vida da cantora, recusou-lhe missa fúnebre. Mas Paris, em peso, levantou-se para a homenagear.

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