A mulher de Santa Comba

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Há fotos assim, quase perfeitas. Aquela da mulher de xaile branco de tricot (todo um programa, aquele xaile) de dedo e cartaz em riste, a gritar contra os "vermelhos" no meio dos santa-combenses de cepa e cartazes a dar vivas a Salazar, é uma delas.

Alguém devia entrevistar aquela mulher. Nem sei por que motivo não me lembrei de o fazer antes de escrever este texto. Mas tornou-se-me agora evidente, de uma evidência dolorosa, que é imperativo saber quem ela é. Porquê? Porque no meio de toda esta discussão sobre Salazar, o seu lugar na História, entre os "grandes portugueses" do concurso da TV, o lugar de um museu de Salazar no Portugal contemporâneo, o financiamento do museu, etc., nada transportou a urgência da paixão daquela mulher de trinta anos.

Ela "acredita" em Salazar. Há mais gente a acreditar em Salazar - quer dizer, ninguém duvida que ele existiu. Mas a "acreditar" como ela, e aos trinta anos, não há muitos. E o que é "acreditar" em Salazar? É, por exemplo, designá-lo sempre em maiúsculas, como faz um site sobre O HOMEM criado em 2006, sob o nome "O Obreiro da Pátria", em que se descobrem fotografias, frases, entrevistas, depoimentos e "esclarecimentos" - embora sobre a Polícia Internacional e de Defesa do Estado (PIDE), um dos itens do menu do dito site, ainda não tenha havido vagar para esclarecer o que seja: está em branco.

Ninguém pode querer impedir estas pessoas de "acreditar" em Salazar, de lhe manter a campa num brinco, de lhe dedicar poemas e saudações nazis. Ou de lhe erguer um museu, de lhe mostrar os chinelos, a camisa e o vaso de noite, a escova de dentes e a agenda. Vai haver quem queira degustar o kitsch do ditador português e a miséria forreta da sua intimidade. É quase para rir - pelo menos para quem não esteve no Aljube, não foi torturado na António Maria Cardoso nem sofreu degredo no Tarrafal.

Esses, claro, não gostam. Percebe-se. Mas não têm de ir ver, nem ter nada a ver com o assunto. Desde que o erário público da democracia não sirva para pagar o sacrário, siga a romaria. Com a filha de Santa Comba à cabeça, com o seu xaile mais o seu tão eloquente cartaz: "Salazar, estás vivo, mesmo para quem nega a tua obra". Ela é todo um museu.

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