A morte do rei nas páginas do 'Diário de Notícias'

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Atentado foi tema de sucessivas edições na imprensa portuguesa

A 2 de Fevereiro de 1908, o DN noticia a "morte d'El Rei e do Príncipe Real D. Luiz Filippe", no "gravissimo attentado contra a familia real". Tal como os seus pares da imprensa matutina, tem presente que, nesse momento, já Lisboa sabe o que aconteceu, "em vista da rapidez com que a nova se espalhou".

E o que aconteceu, escreve o DN na sua primeira página desse dia, foi algo "sem precedentes". "Na História de Portugal não se registava até ontem um único regicídio, embora contra alguns monarcas portugueses tivesse havido tentativas de semelhantes atentados. E até mesmo em países estrangeiros, onde tais processos de eliminação infelizmente se acham vulgarizados, não temos conhecimento de que algum possa medir-se em gravidade com o de que Lisboa foi teatro".

O relato do jornal espelha também o clima de incerteza que o dia traráquot;Não é nestas condições de inquietação e de dúvida que podemos fazer frios comentários ou considerações de qualquer natureza". São também de incerteza os dias que esperam o então ainda infante D. Manuel, "que hoje começa tão imprevista e abruptamente o seu reinado", lembra o jornal. "Nada, porém, o ajudará melhor a cumprir a altíssima missão em que se vê investido do que o amor entranhado pelo seu povo e o respeito escrupuloso pela lei e pela liberdade".

Os relatos do que aconteceu no dia 1 de Fevereiro de 1908 vão naturalmente ocupar sucessivas edições na imprensa portuguesa. Depois do choque inicial, surgem os primeiros exercícios de análise. Traçando balanços do reinado de D. Carlos, discutindo as consequências políticas do seu trágico desfecho, fazendo desfilar em ilustrações e fotografias os rostos dos que partiram e dos que ficaram. Será assim da Ilustração Portugueza ao Occidente, passando pela Brasil - Portugal ou pela revista Serões - que, de todos, fará talvez a mais extensa e pormenorizada cobertura dos acontecimentos.

No caso do DN, e tal como os seus pares, a reconstituição da viagem de D. Carlos, D. Amélia e D. Luís Filipe de Vila Viçosa a Lisboa vai ocupar o grosso do seu relato. Tal como os momentos de espera no Terreiro do Paço até se ouvirem os primeiros tiros na esquina para a Rua do Arsenal e o pânico se instalar, culminando com a identificação dos autores materiais do atentado. Característica vincada no jornalismo da época, a reportagem sintetizará, capítulo a capítulo, os seus principais momentos: "O senhor infante D. Manuel ferido", o desespero e a heroicidade de "Sua magestade a Rainha", "Os régios cadáveres no Arsenal da Marinha", "Sua magestade a Rainha senhora D. Maria Pia perante os cadáveres de seus filho e neto", "Morte dos assassinos", "Os cadáveres na câmara municipal", "Condução dos mortos para o Necrotério". A cobertura dos acontecimentos voltará a intensificar-se mais tarde, com o acompanhamento dos funerais de D. Carlos e de D. Luís Filipe até São Vicente de Fora, panteão dos Braganças.

No texto D. Carlos, o Martirizado, publicado originalmente na Gazeta de Notícias do Rio de Janeiro, Ramalho Ortigão deixará do monarca um retrato pessoal: "Havia na personalidade do Rei D. Carlos um fundo singular de acanhamento orgânico, que ele publicamente encobria sob a máscara de uma altivez postiça. Na convivência íntima ele era mais do que afável, era terno, e a sua bondade chegava a ser humilde. Todos os seus criados o atestam: ele era o amo 'que nunca ralhou'". -M.J.P. com Ana Marques Gastão, Eurico de Barros, Isabel Lucas, Leonor Figueiredo e Nuno Galopim